Decisões de última hora sobre debate dão combustível a críticas de Flávio ao STF às vésperas da votação
Proibição de púlpito vazio de Lula desmontou estratégia preparada pelo senador, enquanto autorização para Renan Santos participar aumentou receio de ataques mais duros
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pretende transformar as decisões judiciais que alteraram o último debate presidencial em munição para a reta final da campanha, reforçando críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Judiciário.
A estratégia vai além da disputa presidencial, e segundo aliados, a crítica ao Supremo é hoje um dos principais eixos usados pelo bolsonarismo para mobilizar votos não apenas para Flávio, mas também para candidatos a deputado e senador aliados ao grupo.
As decisões tomadas poucas horas antes do debate, que acabou cancelado, deram novos argumentos à campanha. A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a Globo de exibir o púlpito vazio reservado a Lula (PT) e de permitir perguntas dirigidas ao candidato ausente. No mesmo período, o ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou a participação de Renan Santos (Missão), aumentando o desconforto da equipe de Flávio com o confronto.
Para aliados de Flávio, a decisão do TSE atingiu justamente o centro da estratégia que havia sido montada para a noite. A campanha não pretendia apenas falar sobre a ausência de Lula, mas explorar a imagem do púlpito vazio reservado ao petista durante a transmissão. A avaliação era que a cena teria mais força política do que simplesmente mencionar a ausência do presidente e funcionaria como um elemento visual permanente para lembrar ao eleitor que Lula havia decidido não comparecer.
Flávio havia decidido participar do debate mesmo sem Lula e treinou a partir desse cenário. A equipe simulou situações em que o petista estaria ausente e preparou respostas e intervenções para aproveitar a oportunidade. Com a decisão do TSE, porém, o principal recurso visual em torno do qual a preparação havia sido construída deixou de existir. A campanha avaliou que Flávio poderia continuar falando sobre Lula, mas que o efeito seria diferente sem a imagem do púlpito vazio no cenário.
A decisão de Gilmar acrescentou outro elemento de desconforto para a campanha. Ao determinar a participação de Renan, o ministro do STF abriu espaço para um candidato que integrantes da equipe de Flávio consideravam particularmente disposto a atacá-lo.
Segundo aliados, havia o receio de que Renan concentrasse parte importante de sua participação em críticas ao senador e transformasse o confronto direto em um dos principais momentos do debate.
A expectativa em relação aos demais adversários era um pouco diferente, embora se admitisse ataques. A campanha trabalhava com a possibilidade de que Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) direcionassem suas críticas principalmente a Lula e ao governo, cenário no qual Flávio poderia ficar menos exposto e concentrar sua participação em críticas ao petista. Renan, na avaliação de integrantes da equipe, representava uma situação diferente porque poderia fazer de Flávio um dos principais alvos do confronto.
Foi nesse contexto que Flávio desistiu de participar do debate depois da decisão do TSE. Ao anunciar a saída, o senador classificou a determinação como "censura" e afirmou, em publicação nas redes sociais, que a imprensa deveria ser livre e as eleições, limpas. Antes disso, aliados já defendiam internamente que ele não comparecesse ao encontro diante da mudança nas regras.
Depois de desistir do debate, Flávio fez uma live em seu canal no YouTube e deu uma amostra do tom que pretende adotar nos últimos dias de campanha. O senador voltou a classificar as decisões tomadas pelo TSE como uma forma de "censura" e criticou a proibição de exibição do púlpito reservado a Lula e a determinação para que os candidatos não pudessem fazer perguntas ao petista.
— A censura no seu mais alto grau, transparente e sem vergonha, que vocês já viram nos últimos tempos — afirmou.
Na transmissão, Flávio também atribuiu às decisões judiciais a responsabilidade pelo cancelamento do debate.
— Decisões subsequentes seguidas, a poucos minutos do debate, instaurando oficialmente a censura nessas eleições — disse.
A avaliação no entorno do Senador é que a sequência de decisões judiciais tomadas na reta final pode dar novo combustível às críticas de Flávio ao STF, pauta que já vinha sendo usada por ele.
Nessa mesma esteira, Flávio também usou a defesa de uma reforma no judiciário para pedir, durante a transmissão, o voto úitl dos eleitores, afirmando que ele seria o único capaz de vencer o petista e mudar a situação do judiciário brasileiro.
— Por que eu estou vendo algo de positivo nisso? Porque eu espero que isso tenha aberto seus olhos. Se você estava pensando em não votar, vote no domingo. Me dê o seu voto de revolta já no primeiro turno.
Esse discurso, segundo aliados, não será usado apenas na disputa presidencial. A campanha pretende explorar as críticas ao STF como um tema capaz de mobilizar a base bolsonarista também na eleição para o Congresso, ajudando candidatos aliados de Flávio na reta final. Alguns deles, como Carlos Jordy (RJ), Carlos Portinho, participaram da live junto de Flávio. A avaliação é que a pauta do Judiciário tem potencial para funcionar como uma bandeira comum entre as diferentes candidaturas do grupo.
Flávio deve levar esse discurso para os últimos dias antes do primeiro turno, no domingo. A expectativa é que as decisões sobre o debate sejam incorporadas às críticas que já vinha fazendo a ministros do Supremo e à Justiça Eleitoral. Caso avance ao segundo turno, aliados dizem que a tendência é manter o Judiciário entre os principais alvos de seu discurso eleitoral.
O cancelamento do debate
Em nota, a TV Globo explicou a decisão de cancelar o debate.
"A TV Globo anunciou o cancelamento do debate presidencial previsto a noite desta quinta-feira. A emissora informou que recebeu há pouco duas intimações judiciais relacionadas à realização do encontro. A primeira é assinada pela ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e atende a um pedido da coligação da candidatura de Lula, do PT, à Presidência da República.
A ata com as regras, assinada por todos os partidos, inclusive o PT, determina que em caso de ausência do candidato, o púlpito reservado a ele seja mantido vazio no cenário com uma placa que o identifique. E que numa das rodadas de tema livre, os candidatos presentes que assim desejarem formulem em trinta segundos a pergunta que fariam ao candidato que não compareceu.
A decisão da ministra Estela Aranha proíbe o púlpito com o nome de Lula. E a formulação das perguntas que seriam feitas a ele.
A segunda intimação recebida pela Globo esta noite é de uma decisão proferida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, e atende a um pedido feito pelo partido Solidariedade a respeito da participação no debate de Renan Santos, do Missão.
As regras que estabelecem que candidatos devem ser obrigatoriamente convidados para debates em rádio e TV são determinadas por lei e reguladas por portaria do Tribunal Superior Eleitoral.
Devem ser convidados obrigatoriamente os candidatos de partidos com representação de pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional.
Em atendimento a essa regra, a Globo convidou para o debate os candidatos Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Lula (PT).
Uma outra decisão, essa da última terça-feira (29), do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, alterou entendimento do próprio TSE sobre contagem de parlamentares no Congresso para fins de debate e decidiu que Romeu Zema, do Novo, teria direito de participar.
A decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo, proferida há pouco, determinou a participação do candidato Renan Santos, mesmo o Missão, partido de Renan, tendo apenas um parlamentar no Congresso Nacional.
A Globo tem longa tradição na organização de debates eleitorais. Nosso propósito é promover a discussão de ideias para o Brasil. Oferecer aos eleitores a oportunidade de comparar projetos. Nosso dever é o de promover a democracia.
Mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa tem de organizar os debates eleitorais.
Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite.
A Globo agradece aos demais candidatos e faz esses esclarecimentos em respeito aos eleitores e ao público que esperavam ter a oportunidade de ouvir propostas para o futuro do país".