Principais tópicos: Custos do diesel, mercado internacional de combustíveis e impacto na inflação e no transporte.
Resumo:
Os Estados Unidos pressionam países da União Europeia a liberarem 120 milhões de barris de reservas estratégicas de diesel nos próximos 180 dias para conter a alta global nos preços do combustível. A medida busca evitar uma proibição de exportações americanas e estabilizar o mercado afetado por conflitos geopolíticos. Para o setor de transporte, a oscilação nos estoques globais impacta diretamente o preço do diesel, principal insumo que influencia os custos operacionais de frotistas e caminhoneiros.
EUA pressionam Europa a liberar reservas de diesel sob ameaça de embargo às exportações
Washington estaria pedindo aos governos da UE que liberem 120 milhões de barris do combustível ao longo de 180 dias
Países europeus realizam negociações de emergência sobre como responder à pressão de Washington para liberar reservas estratégicas de combustíveis e evitar uma possível proibição de exportações pelos EUA.
A União Europeia está coordenando uma posição conjunta depois que Washington procurou alguns países para que liberassem estoques com o objetivo de conter os preços elevados dos combustíveis. O comissário europeu de Energia, Dan Jørgensen, reuniu-se nesta quinta-feira com autoridades do Reino Unido, França, Itália, Irlanda e Alemanha, segundo um funcionário europeu.
Os EUA pediram a pelo menos um Estado-membro que liberasse seus estoques para evitar uma proibição de exportações, de acordo com um memorando visto pela Bloomberg.
Em entrevista coletiva, a porta-voz da Comissão Europeia para assuntos de energia, Anna-Kaisa Itkonen, manteve abertas as opções do bloco, dizendo que a UE “tomará as medidas necessárias” e que estão em andamento conversas de alto nível com os EUA.
Um funcionário do governo alemão afirmou que o pedido americano será analisado detalhadamente, mas que o “único critério” para a avaliação é a “segurança e a ordem pública da República Federal da Alemanha”.
O funcionário acrescentou que “considerações industriais ou de política comercial não devem — e não terão — qualquer papel”.
A Força-Tarefa da União da Energia, que reúne a Comissão Europeia e os Estados-membros e coordena questões relacionadas à segurança energética, deverá se reunir na sexta-feira, às 8h30, no horário de Bruxelas, segundo um porta-voz da Comissão.
Segundo o jornal O Politico, Washington está pedindo aos governos da UE que liberem 120 milhões de barris de diesel ao longo de 180 dias.
A Europa avançou mais lentamente que os EUA na utilização de suas reservas emergenciais de petróleo em resposta às turbulências nos mercados globais provocadas pela guerra, deixando a região com volumes significativos ainda disponíveis. Alguns governos, entre eles Alemanha e Espanha, já haviam afirmado anteriormente que viam pouca necessidade de liberar mais barris.
Os EUA, por outro lado, aprovaram na terça-feira a liberação de outros 40 milhões de barris de sua Reserva Estratégica de Petróleo, concluindo sua parte do esforço. O secretário de Energia americano, Chris Wright, afirmou na quarta-feira que os países europeus anunciariam em breve planos para colocar mais combustível no mercado.
“Vários países-membros europeus liberaram apenas uma fração do petróleo bruto e dos derivados que se comprometeram a disponibilizar”, disse Wright no início desta semana. “Pedimos a cada país-membro que cumpra seus compromissos.”
O foco está no diesel. Embora os fluxos de petróleo provenientes do Oriente Médio tenham se recuperado, os conflitos com o Irã e entre Rússia e Ucrânia continuam afetando o abastecimento, fazendo os preços dispararem. O combustível abastece carros, caminhões, máquinas agrícolas e outros equipamentos pesados, de modo que aumentos prolongados podem elevar os custos de transporte e industriais e alimentar a inflação.
Em março, os EUA e outros países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) concordaram, por meio da Agência Internacional de Energia (AIE), em liberar 400 milhões de barris de petróleo de emergência depois que a campanha militar do presidente Donald Trump contra o Irã provocou a maior interrupção de oferta da história.
Os EUA se comprometeram com pouco menos da metade do total, mas não está claro quanto ainda falta ser liberado pelos demais países, porque os detalhes são confidenciais.
Operadores, analistas e uma refinaria na Europa afirmam que grande parte do volume restante parece estar na região, onde os países utilizaram apenas quantidades limitadas no início do ano. Isso deixa a Europa com mais combustível que poderia colocar no mercado se necessário, embora a quantidade — e a velocidade com que ela poderia ser liberada — varie de país para país.
Até terça-feira, a Alemanha, maior contribuinte da Europa, não tinha planos de oferecer os 15 milhões de barris restantes que havia se comprometido a liberar — cerca de 77% de sua contribuição total — segundo o Ministério da Economia. “Portanto, a grande maioria do petróleo bruto e dos derivados permanece em reserva”, afirmou o ministério, acrescentando que a liberação de petróleo não tem como objetivo estabilizar os preços, pois isso provocaria especulação no mercado.
Nesta quinta-feira, um porta-voz do ministério afirmou que quaisquer medidas adicionais deveriam ser coordenadas dentro da UE e baseadas em uma avaliação conjunta por meio dos procedimentos internacionais estabelecidos. “O que é crucial é chegarmos a soluções coordenadas e mutuamente benéficas”, disse o porta-voz.
Em outro ponto, a Espanha, quarta maior contribuinte do continente, liberou cerca de um terço de seu compromisso de 11,6 milhões de barris. O Reino Unido, terceiro maior contribuinte europeu, com um compromisso de 14 milhões de barris, afirmou que “há estoques significativos disponíveis caso o mercado necessite deles”. A França, por sua vez, ainda mantém seu estoque estratégico completo, disse o ministro das Finanças, Roland Lescure, na quarta-feira.
Cerca de um terço dos 400 milhões de barris “ainda está por vir”, afirmou o diretor-executivo da AIE, Fatih Birol, a jornalistas na terça-feira. A agência, sediada em Paris e criada após os choques do petróleo da década de 1970, não divulgou quais países respondem pela maior parte dos barris ainda pendentes.
Os dados informados à AIE e à Iniciativa Conjunta de Dados das Organizações, sediada em Riad, apresentam uma defasagem, mas apontam para uma diferença marcante entre os dois lados do Atlântico. Entre fevereiro e julho, os estoques americanos de diesel e gasolina caíram 27% — uma queda muito mais acentuada que a registrada nas cinco maiores economias europeias, onde as reduções não ultrapassaram 7%.
Entre os 28 países da AIE que divulgaram dados, os EUA registraram a maior queda tanto em volume de barris quanto em termos percentuais.
Outros dados da AIE contam uma história semelhante. Os estoques de petróleo, medidos em dias de importações líquidas, permaneceram estáveis ou caíram apenas marginalmente entre fevereiro e junho no Reino Unido, na França e na Espanha, enquanto aumentaram na Alemanha. Entre as cinco maiores economias da Europa, apenas a Itália apresentou uma queda significativa.
A disparada dos preços do diesel também está se tornando uma preocupação além dos mercados de petróleo. O Banco Central Europeu alertou que preços mais altos do petróleo e do gás natural representam um risco para a inflação, enquanto o presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, apontou as margens elevadas de refino como outra fonte de pressão sobre os preços.
Enquanto isso, a Europa está reagindo às possíveis restrições americanas às exportações de diesel, alertando que a interrupção do comércio poderia aumentar ainda mais a pressão sobre os mercados de combustíveis. Wright, por sua vez, fez ressalvas a uma proibição total.
Autoridades europeias também estão avaliando outras formas de aumentar a oferta, com o presidente francês Emmanuel Macron defendendo nesta semana que a UE flexibilize algumas regras de qualidade dos combustíveis para ampliar a quantidade disponível no mercado.