O G7 anunciou a liberação coordenada de 100 milhões de barris de diesel e outras reservas energéticas para tentar conter a disparada de até 40% nos preços do combustível, impulsionada por conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia. A medida busca aliviar os custos operacionais no transporte de cargas e na indústria, fortemente afetados pela escassez e pela alta global do insumo.
Principais tópicos: Custos (diesel), geopolítica energética e inflação no transporte.
G7 anuncia liberação de 100 milhões de barris de diesel contra disparada de até 40%
Preços do combustível atingiram altas recordes em meio à guerra no Oriente Médio, ataques ucranianos à Rússia e queda nas atividades de refino
O G7, grupo das sete nações mais ricas do mundo, anunciou nesta sexta-feira, 2, que vai iniciar uma liberação coordenada de 100 milhões de barris de diesel e outras reservas por meio da Agência Internacional de Energia (AIE), com intuito de tentar estabilizar os mercados globais de energia. O anuncio veio em meio a uma disparada do diesel, que atingiu altas históricas de até 40% no Reino Unido e na União Europeia, e o preço recorde de US$ 6,38 por galão nos Estados Unidos (o dobro de um ano atrás).
“Implementaremos nossos compromissos com uma liberação coordenada, por meio da AIE, de 100 milhões de barris, com início imediato e duração de quatro meses, incluindo uma liberação substancial e antecipada de diesel nos primeiros 20 dias por parte dos membros e parceiros do G7”, afirmou o comunicado do G7, divulgado pelo gabinete do presidente francês, Emmanuel Macron.
Impacto significativo
Enquanto a gasolina é um combustível voltado principalmente para automóveis de passeio, o diesel movimenta grande parte da economia em geral, abrangendo desde o transporte de cargas e maquinário agrícola até a construção civil e a indústria.
É por isso que a escassez de diesel ou disparadas no preço podem gerar um impacto econômico maior do que a alta no preço da gasolina, ao elevar os custos de transporte de mercadorias e de operação de maquinário pesado. À medida que as empresas enfrentam pressões financeiras, esses custos de energia mais elevados serão repassados aos consumidores, agravando a crescente crise do custo de vida e a inflação.
Para a Europa, o diesel mais caro pode ter consequências drásticas.
“Décadas de incentivos políticos, como vantagens fiscais, deixaram a frota de veículos da Europa com uma dependência muito maior do diesel do que regiões como os EUA”, afirmou Georg Zachmann, do think tank Bruegel, sediado em Bruxelas, à emissora alemã Deutsche-Welle. “Como resultado, a União Europeia apresenta estruturalmente um excedente de gasolina, que exporta, e um déficit de diesel, que precisa importar”, acrescentou.
Por que os preços dispararam?
Entre os principais fatores da alta do diesel estão as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia. O conflito envolvendo os Estados Unidos e o Irã prejudicou o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, por onde passava um quinto do combustível consumido no mundo, além de danificar refinarias na região, enquanto ataques de drones ucranianos causaram danos severos a refinarias russas, reduzindo drasticamente a produção e a exportação de diesel refinado. A Rússia é o segundo maior exportador do combustível do mundo, depois dos Estados Unidos.
Em meio ao caos geopolítico que se arrasta desde o início do ano, o gargalo global deslocou-se da escassez de combustível para a falta de capacidade de refino ativa: as refinarias produzem proporções específicas e imutáveis de gasolina e diesel a partir do petróleo bruto, tornando impossível aumentar rapidamente apenas a produção de diesel. Além disso, ele exige processamento mais intensivo e maior aplicação de calor a partir do petróleo bruto pesado, o que limita o volume total de produção em relação à gasolina.
Um relatório divulgado pela Transport & Environment, organização sediada em Bruxelas, calculou que os motoristas europeus estão pagando, em média, 30 euros a mais (cerca de R$ 177) por um tanque de 50 litros de diesel desde o início da guerra no Irã.
Leia a íntegra do comunicado do G7:
“Hoje, nós, líderes do G7, realizamos uma reunião virtual para abordar os desafios crescentes à nossa segurança energética. Diante da volatilidade sem precedentes nos mercados de petróleo — com a disparada dos preços ameaçando a estabilidade econômica e o bem-estar de nossos cidadãos —, concordamos com medidas decisivas e coordenadas para estabilizar o fornecimento imediato de energia, proteger famílias e empresas de choques de preços e fortalecer a resiliência a longo prazo dos sistemas energéticos globais.
Coordenaremos os cronogramas de manutenção nas refinarias do G7 para evitar paralisações simultâneas de capacidade e aumentar temporariamente as taxas de utilização, sempre que viável. Também incentivamos o engajamento com países que possuem capacidade significativa de refino para impulsionar a produção global de produtos refinados, particularmente diesel, à luz das pressões de mercado em curso neste segmento.
O G7 solicita à AIE (Agência Internacional de Energia) que monitore a implementação imediata e integral dos compromissos de março de 2026. Nesse sentido, levando em conta os compromissos já cumpridos, implementaremos nossos compromissos por meio de uma liberação coordenada, via AIE, de 100 milhões de barris (MB), com início imediato e duração de quatro meses, incluindo uma liberação substancial e antecipada de diesel nos primeiros 20 dias por parte dos membros e parceiros do G7. Reunir-nos-emos no âmbito da AIE nos próximos dias para discutir a possibilidade de liberações adicionais de diesel, conforme necessário.
Reafirmamos nosso compromisso de não impor restrições à exportação de energia e produtos energéticos entre os países do G7 e conclamamos todos os produtores a se absterem de impor proibições que possam agravar as tensões no mercado.
Convidamos a AIE a monitorar o impacto dessas medidas na segurança energética e na estabilidade do mercado, bem como a acompanhar a implementação dos compromissos. Um relatório de acompanhamento deverá ser apresentado em até 20 dias, incluindo recomendações práticas para aprimorar respostas futuras, inclusive a recomposição de estoques.
Condenamos os ataques contínuos do Irã contra seus vizinhos regionais e suas ações que perturbam o comércio internacional, a segurança energética e a economia global. Exigimos a restauração imediata e integral dos direitos e princípios de navegação no Estreito de Ormuz e expressamos nossa determinação em redobrar nossos esforços coletivos nesse sentido. Elogiamos os Estados Unidos por seus esforços para garantir o livre fluxo de comércio através do Estreito de Ormuz.
Manteremos as sanções contra a Rússia enquanto trabalhamos com a AIE e parceiros globais para” …evitar novos efeitos de transbordamento para os mercados de combustíveis, gás e outras commodities.
As preocupações dos nossos cidadãos com os preços da energia continuam sendo uma prioridade máxima. Acompanharemos de perto os desdobramentos e estaremos prontos para ajustar as medidas conforme necessário. Os acordos de hoje representam um passo em direção a um futuro energético mais seguro, transparente e resiliente.”