A produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto frente a julho, puxada principalmente pela queda na indústria extrativa, com destaque para a redução na produção de minério de ferro. O cenário de juros altos e crédito encarecido afeta os investimentos do setor e o consumo, gerando uma perda de fôlego na atividade industrial acumulada nos últimos meses. A notícia não traz impactos diretos sobre custos de combustíveis, pedágios, novas regras de trânsito ou obrigações documentais para o transporte rodoviário de cargas.
Principais tópicos: Economia, Produção Industrial, Minério de Ferro, Setor de Transportes (frete marítimo).
Indústria recua 0,6% em agosto, com queda na produção de minério de ferro
Retração foi puxada principalmente pela indústria extrativa, de peso relevante, mas recuo foi generalizado entre os ramos pesquisados. Juros altos são entrave ao setor, diz analista
A produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto ante julho, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE. Foi a queda mais intensa para um mês de agosto desde 2022, quando havia recuado 1,4%.
Todas as quatro categorias econômicas investigadas tiveram queda. Em termos de variação, o segmento de bens de consumo semiduráveis e não duráveis - que inclui desde roupas a medicamentos e cigarros - teve maior recuo (1,7%), enquanto o setor de bens duráveis retraiu 1%, influenciada pela menor fabricação de eletrodomésticos das linhas branca e marrom, incluindo televisores.
Já a produção de bens intermediários recuou 0,2%, puxada pela menor atividade da indústria extrativa, que tem peso relevante no setor, e foi afetada pela baixa na produção de minério de ferro. Bens de capital tiveram retração de 0,6%.
Setor perde fôlego em meio aos juros altos
A indústria ainda cresce 0,8% no acumulado do ano, mas há em curso uma perda de fôlego, conforme apontam os números divulgados pelo IBGE. Nos quatro primeiros meses do ano, a indústria cresceu 4,3%. Já nos quatro seguintes, recuou 3,1%.
O movimento ocorre em meio à política monetária restritiva, que mantém os juros em patamar elevado e encarece o crédito para famílias e empresas, segundo André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE.
— A política monetária restritiva - embora tenha sido observado cortes na taxa de juros - tem impacto direto nos níveis de inadimplência de empresas e famílias. Há um comprometimento grande da renda disponível das famílias, e isso faz com que empresas adiem decisões de investimentos — diz André Macedo, do IBGE.
Segundo Macedo, a perda de intensidade da produção industrial tem sido acompanhada por uma disseminação do movimento de queda.
— Embora o mercado de trabalho esteja resiliente, com número recorde de pessoas ocupadas e crescimento da massa de rendimentos, o comprometimento da rendas das famílias e adiamento das decisões de investimentos de empresas ajudam a entender as perdas do setor industrial.
Minério de ferro pesa entre as principais quedas
Dos 25 ramos industriais pesquisados, 16 tiveram queda na produção em agosto. Entre as atividades, a produção de produtos do fumo teve a maior queda percentual, de 23,4%, após quatro meses seguidos de alta. Nesse período, o segmento havia acumulado crescimento de 32,5%. A atividade tem, porém, peso relativamente pequeno no resultado geral.
A produção de produtos farmoquímicos e farmacêuticos caiu 5,5%, enquanto a indústria extrativa recuou 0,7%, no quarto mês consecutivo de retração. O setor acumula queda de 4,7% nesse período.
A indústria extrativa tem peso de cerca de 14% na produção industrial, segundo Macedo, o que ajuda a explicar a relevância da queda do segmento para o resultado de agosto. Dentro dele, a menor produção de minério de ferro teve impacto importante.
— Vemos empresas produtoras reduzindo o volume de produção. Isso tem como pano de fundo a desvalorização dessa commodity e o aumento do frete marítimo. Em contraponto, o setor de petróleo e gás tem mostrado crescimento e ameniza a queda do minério no setor extrativo — analisa.
Vestuário e eletrônicos também recuam
Outros impactos negativos vieram de produtos de borracha e material plástico (-1,8%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-3,3%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-4%).
Neste último grupo, a queda foi influenciada pela menor produção de televisores e de eletrodomésticos das linhas branca e marrom. Segundo o IBGE, a produção de motocicletas também recuou, enquanto a de automóveis avançou na passagem de julho para agosto, embora sobre uma base de comparação mais elevada.
Na direção contrária, nove atividades registraram aumento da produção. O principal impacto positivo veio de produtos alimentícios, com alta de 1%, puxado por carnes, sucos de laranja, produtos derivados da soja.
Também ajudaram a indústria em agosto os segmentos de produtos diversos, que avançaram 8,4%, produtos químicos, com alta de 0,9%, e metalurgia, que cresceu 0,8%.
Embora o setor de produtos químicos tenha avançado em agosto, a menor produção de adubos, fertilizantes e inseticidas destinados ao setor agrícola ao longo do ano revela perda de intensidade da atividade. Segundo Macedo, a guerra no Oriente Médio tem afetado a fabricação de fertilizantes no país.