O Brasil registrou recorde de inadimplência empresarial e alta taxa de empresas em recuperação judicial, um cenário agravado pelo longo prazo médio de recebimento nas vendas B2B e pela pressão sobre o fluxo de caixa de micro e pequenas empresas. A situação impacta a cadeia de fornecedores e transportadores devido ao atraso de pagamentos e à dificuldade de acesso a crédito acessível.
Tópicos abordados: Inadimplência empresarial, fluxo de caixa, prazos de recebimento, recuperação judicial e impacto nas cadeias de suprimentos.
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Publicado em 7 de outubro de 2026 às 11h20.
O Brasil terminou julho com 9,2 milhões de empresas inadimplentes, o maior número da série histórica da Serasa Experian. Juntas, elas acumulam 67,2 milhões de dívidas em atraso, que somam R$ 238,6 bilhões, segundo o levantamento divulgado em setembro. Cada CNPJ negativado deve, em média, R$ 25,9 mil.
O dado menos visível está na origem dessas dívidas. Bancos, cartões, cooperativas e financeiras respondem por 24,3% do total. O restante está espalhado entre prestadores de serviços, que lideram com 31,7%, concessionárias de água, luz e gás, operadoras de telefonia e uma longa lista de fornecedores.
Na prática, três em cada quatro dívidas atrasadas das empresas brasileiras não são com o sistema financeiro, e sim com outras empresas. Cada boleto que deixa de ser pago vira um buraco no caixa de quem vendeu, e a inadimplência passa de um elo para o outro da cadeia.
Parte da explicação está em um hábito antigo do mercado brasileiro. Um levantamento da plataforma de gestão fiscal Qive, que analisou mais de 500 milhões de notas fiscais emitidas entre 2023 e 2025, mostra que 77% das transações entre empresas são feitas a prazo. O volume chega a R$ 4,1 trilhões.
O prazo também é longo. Na pesquisa de pagamentos da seguradora de crédito Coface na América Latina, feita entre abril e maio de 2026 com 272 empresas de seis países, o Brasil aparece com prazo médio de 66 dias para receber dos clientes, empatado com a Argentina no topo da região.
A média latino-americana caiu de 59 para 56 dias em um ano. A brasileira não se mexeu, de acordo com o levantamento.
Segundo a mesma pesquisa, 95% das empresas da região concedem crédito comercial aos clientes, e 79% enfrentaram atrasos de pagamento em 2026. O atraso médio foi de 33 dias. "A redução dos prazos mostra uma postura mais cautelosa, diante da necessidade de preservar liquidez", afirma Patricia Krause, economista da Coface para a América Latina.
O mecanismo é conhecido de quem trabalha com finanças. Ao vender a prazo, a empresa financia o cliente com o próprio caixa. Se ele atrasa, o dinheiro que deveria pagar fornecedores, salários e impostos não entra, e a diferença precisa ser coberta com capital próprio ou com crédito bancário.
O tempo que esse dinheiro fica parado tem nome: ciclo de conversão de caixa, a soma dos dias de estoque e de recebimento menos os dias de pagamento a fornecedores. Nas empresas brasileiras analisadas pela KPMG, o ciclo médio foi de 88 dias em 2024. Entre as pequenas, chegou a 160 dias. Nas médias, a 142. Nas grandes, ficou em 76.
A diferença ajuda a entender por que 94,6% das empresas inadimplentes são micro e pequenas. Elas vendem a prazo para clientes maiores, esperam mais para receber e pagam mais caro quando precisam cobrir o intervalo com empréstimo.
O ciclo de cortes da Selic, que chegou a 13,75% ao ano em setembro, ainda não aliviou o quadro. "Apesar dos cortes recentes da Selic, ainda não observamos uma mudança estrutural nas condições financeiras", diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.
O efeito em cadeia também aparece nos casos mais graves. Em 2025, o país registrou o recorde de 2.466 empresas em recuperação judicial, segundo a Serasa. Quando uma companhia desse grupo entra no processo, as dívidas com fornecedores ficam congeladas e passam a depender do plano aprovado pelos credores, o que transfere parte do problema para quem vendeu a ela.
Há mudanças em curso que podem ajudar. A duplicata escritural, versão digital do título usado nas vendas a prazo, começou a ser adotada em 2026 e tende a facilitar o registro e a antecipação de recebíveis, segundo a Qive. A ferramenta, porém, não substitui a decisão anterior: a quem vender a prazo, quanto e por quanto tempo.
Em muitas empresas, o prazo ao cliente ainda é definido pela área comercial, como argumento de venda. Os números mostram que ele é, antes de tudo, uma concessão de crédito, com risco, custo de capital e impacto direto sobre a liquidez.
Esse é o tipo de decisão trabalhado no MBA Executivo em Finanças da Saint Paul Escola de Negócios, em São Paulo. A disciplina de Gestão de Riscos Financeiros cobre modelos de score e modelos estruturais de risco de crédito, além de risco de mercado, liquidez e risco operacional. Finanças Corporativas trata da gestão avançada do capital de giro, com capital circulante líquido, necessidade de capital de giro, saldo em tesouraria e ciclo de caixa.
A análise de demonstrativos completa o repertório, com a leitura da origem e da qualidade dos lucros e de quanto do resultado efetivamente vira caixa. Entre os professores estão André Moura Cintra Goulart, que atua desde 1998 na supervisão bancária do Banco Central em temas de riscos e controles internos, e Marcos Piellusch, diretor de riscos da Max Capital Markets.
O programa soma 496 horas, com aulas aos sábados a cada três semanas, presenciais ou ao vivo remotas, e reúne gerentes, controllers, diretores, C-levels e empresários de setores diferentes. Toda venda a prazo é um empréstimo, a diferença é que nem sempre alguém fez a análise de crédito antes de assinar.