Semana marcada pela estreia bilionária da Unitree na bolsa de Xangai e por uma feira com mais de 300 empresas expõe a distância entre demonstrações
Depois de dois anos atraindo investidores com robôs capazes de dançar breakdance, dar saltos mortais e até completar maratonas, os fabricantes chineses de humanoides enfrentam nesta semana em Pequim um teste bem mais difícil: provar que suas máquinas conseguem operar de forma confiável o suficiente para gerar valor econômico real. Mais de 300 empresas devem participar da Conferência Mundial de Robôs, que acontece nesta semana na capital chinesa, com mais de 2 mil produtos em exposição e o lançamento de pelo menos 150 novidades, segundo as autoridades locais.
O evento coincide com a estreia da Unitree na bolsa de Xangai, uma das maiores fabricantes de humanoides do mundo em volume de vendas, após uma oferta pública inicial que teve demanda de investidores de varejo mais de 8 mil vezes superior ao número de ações disponíveis. Wang Xingxing, fundador da empresa, discursará no fórum principal da conferência sobre os rumos da próxima década do setor, segundo o governo municipal de Pequim.
O entusiasmo dos investidores em torno dos humanoides chineses está em um novo patamar, mas o centro da conversa vem mudando. Em vez de demonstrações virais, o que importa agora é a produtividade, quanto trabalho o robô realmente entrega, quanta supervisão humana ainda exige e se o investimento se paga. Embora robôs já estejam substituindo trabalhadores humanos em aplicações pontuais, como entrega de alimentos em hotéis e algumas linhas de montagem, a adoção em larga escala fora de projetos-piloto isolados ainda não aconteceu.
Parte do setor já reconhece que essa cobrança está atrasada. A Lumos Robotics, startup apoiada pela japonesa Mitsubishi Electric, optou por concentrar seu robô MOS em inspeção industrial e movimentação de materiais, em vez de apostar em aplicações domésticas ou de entretenimento. Segundo o executivo-chefe da empresa, Yu Chao, as companhias mais vulneráveis no concorrido setor chinês de IA incorporada são justamente aquelas que desenvolvem corpos, modelos ou bases de dados de forma isolada, sem provar a tecnologia em aplicações reais. Para Yu, tudo se resume a uma pergunta simples: o robô consegue gerar valor para um cliente? As empresas incapazes de responder sim a essa pergunta, segundo ele, tendem a ser eliminadas do mercado.
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O analista de robótica Georg Stieler, que assessora empresas industriais na China, estima que entre 50% e 70% dos humanoides fabricados neste ano podem acabar servindo apenas como “fábricas de dados”, usados para coletar dados de treinamento, e não para realizar trabalho produtivo remunerado. A corretora chinesa Guotai Securities calcula que um robô humanoide industrial precisaria custar cerca de 160 mil yuans, incluindo manutenção, para se pagar em dois anos frente a um trabalhador que ganha 80 mil yuans anuais, mas, na prática, segundo o instituto de pesquisa MERICS, de Berlim, esses robôs custam hoje entre 300 mil e 500 mil yuans.
Parte dessas promessas será posta à prova publicamente a partir de sábado, quando começam os World Humanoid Robot Games, no Estádio Nacional de Patinação de Velocidade de Pequim, entre os dias 22 e 26 de agosto. Ao lado das corridas, partidas de futebol e lutas que chamam atenção do público, a competição inclui um número crescente de provas desenhadas em torno de tarefas de trabalho de verdade, cenários de fábrica, hotel e ambiente doméstico, com organizadores exigindo que os robôs realizem tarefas contínuas e mais longas em ambientes complexos.
Segundo a programação da competição, obtida pela Reuters, as provas incluem embalagem e armazenagem, montagem industrial, abastecimento de materiais, atendimento em varejo e escritórios, recarga de veículos elétricos e tarefas que exigem destreza, como conectar cabos e manusear ferramentas. Ao contrário de uma corrida ou coreografia de dança, esse tipo de prova avalia se os robôs conseguem identificar objetos desconhecidos, manipulá-los repetidamente, se recuperar de erros e concluir tarefas sem que engenheiros precisem intervir.
A dificuldade de transformar demonstrações em produtos economicamente viáveis não é exclusividade chinesa. Nos Estados Unidos, Jerry Wang, executivo-chefe da AIxCrypto Holdings, lançou recentemente a RoboShare, marketplace que permite que empresas aluguem robôs por tarefa, em vez de comprá-los integralmente. Segundo ele, um dos maiores gargalos hoje não está nos robôs em si, mas em todo o ecossistema ao redor deles: faltam operadores qualificados, e os custos de transporte, instalação e manutenção ainda tornam a mão de obra robótica pouco competitiva economicamente.
A geopolítica acrescenta outra camada de incerteza ao cenário. Em julho, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos restringiu novas autorizações de equipamentos para dispositivos robóticos avançados fabricados no exterior, afetando empresas como a própria Unitree, embora modelos já autorizados anteriormente ainda possam ser vendidos. Segundo a consultoria de tecnologia IDC, a China responde hoje por 82% dos embarques globais de humanoides, e no cenário mais pessimista para os efeitos dessas restrições americanas, as vendas de humanoides nos Estados Unidos poderiam ficar 58% abaixo da projeção anterior até 2030.
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Redação
Pamela Sousa
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