Algoritmo do X prioriza posts que geram irritação, diz estudo
Resumo
Algoritmo do X (antigo Twitter) tende a aprender com o que irrita o usuário e a entregar mais conteúdo que causa indignação, segundo um estudo publicado na revista científica PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).
O que aconteceu
O trabalho analisou como o feed "Para você" do X prioriza engajamento acima de outros critérios. Os autores concluem que a plataforma amplifica conteúdo que não combina com os valores declarados pelos próprios usuários.
A pesquisa acompanhou 715 usuários ativos do X nos EUA e coletou dados entre setembro e outubro de 2024. Os voluntários instalaram uma extensão no navegador para registrar o que aparecia no "Para você" e no feed de contas seguidas, com amostra balanceada por etnia, gênero e alinhamento partidário. Os autores também mapearam os valores pessoais informados pelos participantes antes de comparar isso com o conteúdo consumido.
O estudo indica que o maior descompasso aparece quando o usuário responde a posts, e não quando apenas curte ou reposta. "Quando olhamos para comentar, o ato de responder a posts, é aí que vemos algum desalinhamento significativo entre os valores das pessoas e os valores do conteúdo a que elas estão respondendo", afirmou Ziv Epstein, pesquisador da Universidade de Stanford, no EUA, e um dos coautores do estudo, em entrevista ao site 404 Media.
Apesar das respostas representarem só 6,8% das interações observadas, elas têm peso desproporcional na forma como o algoritmo aprende. "Responder é só uma fração do engajamento, mas parece haver evidências de que esses algoritmos estão priorizando e aprendendo mais com esse tipo mais raro de engajamento", disse Epstein.
A pesquisa também encontrou mais "ragebait" (isca de ódio) para usuários que se identificaram como democratas, embora a causa não esteja clara. "É esse ciclo de retroalimentação do 'outrage baiting'. O algoritmo aprende que você fica indignado e continua servindo mais conteúdo nessa direção e isso parece ser particularmente verdadeiro para os usuários democratas do nosso estudo", afirmou o coautor do estudo.
Como o estudo mediu "valores" no feed
Para estimar o que cada usuário valoriza, os pesquisadores aplicaram um questionário baseado na Teoria dos Valores Humanos Básicos, de Schwartz. A ferramenta organiza 19 dimensões, como "tolerância", "dominância", "hedonismo" e "abertura à mudança", além de registrar o alinhamento político declarado.
Na análise, posts de contas seguidas tendem a refletir melhor os valores informados pelos participantes do que o conteúdo amplificado no "Para você". O artigo descreve uma correlação negativa entre valores explícitos e os valores presentes no conteúdo que o algoritmo tem mais chance de impulsionar.
Epstein diz que o objetivo é levantar debate sobre transparência e impacto social de algoritmos de redes sociais. "Esses algoritmos de redes sociais têm um poder enorme nas nossas vidas, moldam a informação que consumimos, e temos muito pouca transparência sobre como operam e quais são suas implicações", afirmou ao 404 Media.
Resposta do X e limites apontados pelos autores
O X não respondeu ao pedido de comentário do site 404 Media. Já Nikita Bier, ex-chefe de produto da plataforma, afirmou em uma publicação que o algoritmo já foi configurado para favorecer respostas, mas que isso mudou.
Bier atribuiu parte do "ragebait" a um componente que prevê respostas e disse que houve ajustes recentes. "O maior contribuinte para ver 'ragebait' era o preditor de respostas e nós sabíamos que respostas irritadas faziam as pessoas verem mais desse conteúdo. Então, no mês passado, demos ao preditor de respostas um impulso de 15 vezes se for um post de um amigo — e isso reduziu o 'ragebait' em uma ordem de grandeza", escreveu.
O coautor afirma que ainda é cedo para cravar por que o efeito aparece mais entre democratas do que entre republicanos. "Pode haver algum tipo de efeito diferente nas dietas de informação, ou pode ser algo mais psicológico sobre como identidades partidárias diferentes disparam tipos diferentes de ações e reações, mas eu não quero especular demais", afirmou o pesquisador.
Ele também diz ver risco de "bolhas de valores" caso plataformas tentem alinhar o feed ao que o usuário declara preferir. "Acho que, se formos por esse caminho de imaginar feeds alinhados a valores, temos de estar muito atentos ao potencial de câmaras de eco de valores. (...) Acho que essa é uma realidade muito assustadora e sombria".
*Com informações do site 404 Media
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