Seu celular está te escutando? Especialista esclarece mitos e verdades Acesso ao microfone não significa que todas as conversas são gravadas, mas hábitos digitais podem revelar muito sobre o usuário e direcionar propagandas; entenda Por Diego Cataldo, para o TechTudo Atualizado Falar sobre um produto perto do celular e encontrar um anúncio relacionado pouco depois é uma situação familiar para muita gente. A coincidência pode ser tão precisa que parece difícil não desconfiar do microfone, principalmente quando a publicidade envolve um assunto que o usuário não se lembra de ter pesquisado ou surge pouco depois de uma conversa. Afinal, o que o smartphone consegue ouvir, quando o microfone entra em ação e quais informações os aplicativos podem coletar? A resposta passa por entender a diferença entre o acesso ao microfone e outras formas de coleta de dados que acontecem durante o uso de apps e serviços digitais. Para esclarecer como esses mecanismos funcionam, por que algumas recomendações parecem tão certeiras e quais riscos existem para a privacidade, o TechTudo conversou com o especialista em Segurança Defensiva e Redução de Riscos Fernando Serto, Field CTO para a América Latina na Akamai. Seu celular está te escutando? Especialista esclarece mitos e verdades Veja, no índice abaixo, os assuntos tratados nesta matéria. - O celular realmente nos escuta o tempo todo? - Então, por que o algoritmo é tão certeiro nas recomendações? - Entendendo quais aplicativos têm acesso ao seu microfone - Como se proteger de invasões à privacidade - Não é só o celular; veja outros dispositivos que ouvem você O celular realmente nos escuta o tempo todo? A desconfiança de que aparelhos eletrônicos acompanham conversas é comum entre os brasileiros. Uma pesquisa da Sherlock Communications mostrou que 69% dos entrevistados no país acreditam que seus dispositivos pessoais ouvem suas conversas em segredo. O levantamento, realizado em abril de 2024, ouviu 3.444 pessoas em seis países da América Latina, sendo 859 no Brasil. Apesar da percepção, Serto afirma que não há evidências de que celulares, de forma geral, precisem gravar continuamente o que é dito ao redor para direcionar publicidade. O acesso ao microfone também não significa, por si só, que todas as conversas próximas ao aparelho estejam sendo registradas. “O ponto importante é diferenciar o acesso ao microfone da coleta de dados para publicidade. Um aplicativo pode ter permissão para utilizar o microfone para uma função específica, mas isso não significa necessariamente que esteja gravando todas as conversas ao redor do usuário”, explica o especialista. Assistentes de voz são um caso particular. Recursos como Siri e Google Assistente precisam identificar um comando para saber quando o usuário quer acioná-los. Isso exige um mecanismo de escuta local, mas o processo é diferente de gravar e enviar continuamente tudo o que é dito nas proximidades do aparelho. “A detecção da palavra de ativação funciona como um gatilho. O dispositivo procura localmente por um padrão específico, como ‘Ok Google’ ou ‘E aí, Siri’. Quando identifica o comando, o assistente começa a processar a solicitação completa para responder ao usuário”, explica Serto. Então, por que o algoritmo é tão certeiro nas recomendações? A sensação de estar sendo ouvido costuma ganhar força quando um anúncio parece corresponder exatamente a algo mencionado em uma conversa. A explicação pode estar na quantidade de rastros deixados durante o uso de serviços digitais, que permitem traçar perfis detalhados sobre hábitos e interesses. “A quantidade de informações que os serviços digitais conseguem coletar sobre nosso comportamento já é suficiente para produzir anúncios específicos sem precisar acessar uma conversa privada”, afirma Serto. Pesquisas feitas na internet, sites visitados, conteúdos visualizados, compras recentes, localização, interações nas redes sociais e aplicativos utilizados estão entre os sinais que podem alimentar esse processo. Analisados em conjunto, esses dados também permitem fazer inferências sobre interesses que a pessoa nunca declarou ou pesquisou diretamente. Essas associações podem envolver ainda informações relacionadas a dispositivos, contas ou ambientes compartilhados, dependendo de como cada serviço coleta e utiliza os dados. Alguém que pesquisa uma viagem, acessa conteúdos sobre determinado destino e realiza outras atividades relacionadas ao assunto, por exemplo, pode passar a receber anúncios de hotéis sem que uma conversa sobre hospedagem tenha sido gravada. Entendendo quais aplicativos têm acesso ao seu microfone Nem todo acesso ao microfone deve ser encarado como suspeito. Apps de chamadas e videoconferências, gravadores de áudio, ferramentas de reconhecimento de voz e algumas redes sociais dependem do componente para oferecer determinadas funções. O sinal de alerta aparece quando a permissão não tem relação clara com o que o software oferece ou quando um app desconhecido utiliza o microfone sem uma justificativa aparente. No Android, é possível conferir quais apps têm acesso ao componente em Configurações > Segurança e privacidade > Privacidade > Gerenciador de permissões > Microfone. Os nomes dos menus podem variar conforme a fabricante. O Painel de privacidade também permite consultar quais aplicativos utilizaram a permissão e quando isso ocorreu. A partir do Android 12, um indicador verde aparece no canto superior direito da tela quando a câmera ou o microfone estão em uso. Ao tocar no aviso, o usuário consegue identificar o responsável pelo acesso. No iPhone, a consulta pode ser feita em Ajustes > Privacidade e Segurança > Microfone. A tela reúne os aplicativos que solicitaram a permissão e permite retirar individualmente o acesso. O iOS também exibe um indicador laranja quando um app está usando somente o microfone e um indicador verde quando a câmera está ativa, sozinha ou junto com o microfone. Uma calculadora, lanterna ou outro aplicativo sem funções relacionadas a áudio, por exemplo, dificilmente teria uma razão evidente para solicitar acesso ao microfone. “Microfone, câmera e localização merecem atenção especial, mas também vale revisar o acesso a contatos, fotos, arquivos e dispositivos próximos. Se um aplicativo solicita uma permissão que não parece estar relacionada à sua função, o usuário deve questionar por que aquele acesso é necessário”, afirma Serto. Como se proteger de invasões à privacidade Além de controlar quais recursos cada aplicativo pode acessar, alguns cuidados reduzem a exposição a falhas de segurança e softwares maliciosos. Manter o sistema operacional e os apps atualizados é um deles, já que novas versões podem corrigir vulnerabilidades conhecidas. Os programas também devem ser obtidos de fontes confiáveis, e aqueles que não são mais utilizados podem ser removidos do aparelho. A localização exige atenção porque nem todo serviço precisa acompanhar o usuário continuamente. Quando disponível, o acesso pode ser limitado aos momentos em que determinado aplicativo está em uso, em vez de permanecer liberado o tempo todo. Antes de conceder uma autorização, também vale considerar se aquela informação é realmente necessária para a função oferecida pelo software. Não é só o celular; veja outros dispositivos que ouvem você Relógios inteligentes, óculos com inteligência artificial (IA) e gravadores vestíveis também podem captar áudio ao redor do usuário. Alguns dependem do microfone para receber comandos de voz, enquanto outros foram desenvolvidos para gravar, transcrever ou resumir conversas. Entre os exemplos estão o Apple Watch Series 12 e o Apple Watch Ultra 4, que ganharam recursos de Inteligência de Áudio. Segundo a Apple, o áudio bruto usado pelo sistema é processado em uma área isolada do chip S11 e não é gravado nem armazenado. O Retroceder ao Vivo, recurso capaz de recuperar algo dito pouco antes, emite um aviso sonoro e mostra uma indicação visual quando é ativado. Há ainda aparelhos voltados diretamente à gravação. O Plaud NotePin pode registrar conversas e transferir os arquivos para um aplicativo que usa inteligência artificial para gerar transcrições e resumos. Já os óculos Ray-Ban Meta têm microfones usados em recursos como gravação de vídeos com áudio, chamadas e comandos de voz. A presença desses dispositivos em conversas, reuniões e outros ambientes também levanta dúvidas sobre o destino do áudio captado. Além da gravação em si, é preciso considerar o que acontece com esse material quando ele passa por serviços de inteligência artificial. “Quando esses dados são processados por serviços de IA, também é importante entender onde o áudio é processado, por quanto tempo é armazenado, quem pode acessá-lo e se pode ser utilizado para outras finalidades”, afirma Serto. Há ainda uma questão que não depende apenas de quem utiliza o aparelho. Pessoas próximas podem ter suas conversas registradas sem terem escolhido usar o dispositivo ou, em alguns casos, sem saberem que uma gravação está em andamento. Em ambientes profissionais, isso pode envolver conversas privadas, informações de clientes, dados financeiros e outros conteúdos confidenciais. “O ponto central é criar uma cultura em que a presença de um dispositivo capaz de gravar áudio seja percebida pelas pessoas ao redor, especialmente em ambientes onde existe uma expectativa de privacidade. Isso pode ajudar a reduzir situações em que os dados de alguém são capturados sem que essa pessoa sequer saiba que estava sendo gravada”, conclui Serto. 🎥 iPhone 18 Pro vs Galaxy S26 Ultra: qual tem a melhor câmera? iPhone 18 Pro vs Galaxy S26 Ultra: qual tem a melhor câmera?