Resumo:
A notícia aborda a trajetória política e a recente derrota eleitoral do deputado estadual Carlos Minc (PSB-RJ) após 40 anos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O texto foca em sua carreira, histórico de leis aprovadas e planos futuros, como consultoria ambiental e projetos acadêmicos. O conteúdo não traz nenhuma informação sobre rodovias, custos de transporte, documentos, regras da ANTT ou trânsito de cargas.
Principais tópicos abordados:
* Trajetória política de Carlos Minc.
* Derrota nas eleições recentes.
* Balanço de 40 anos de mandato na Alerj e leis aprovadas.
* Planos futuros (sustentabilidade, consultoria e projetos de comunicação).
Irreverência e 300 leis aprovadas: Carlos Minc analisa derrota nas urnas após 40 anos na Alerj
Aos 75 anos, Minc deixa o cargo, garante que não se candidata de novo, mas diz estar longe de pendurar as chuteiras
Três dias depois de amargar a primeira derrota em 11 eleições disputadas, o deputado estadual Carlos Minc (PSB) discursava em cima de um caminhão durante passeata pela reeleição de Lula organizada por estudantes na Avenida Rio Branco. Parecia bem à vontade, como se estivesse de volta à época em que ingressou no movimento estudantil, nos anos 1960, em plena ditadura militar. A exemplo de muitos de sua geração, foi preso, exilado, voltou e entrou para a política — uma carreira de quatro décadas na Assembleia Legislativa do Rio.
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Aos 75 anos, Minc deixa o cargo, garante que não se candidata de novo, mas diz estar longe de pendurar as chuteiras. Planos e propostas não faltam. Na quinta-feira, o decano da Assembleia recebeu O GLOBO em seu gabinete. Trajado com o indefectível colete — são 96 na coleção —, o carioca de Laranjeiras fez logo questão de mostrar a antiga foto ao lado do ambientalista Chico Mendes e do sociólogo Betinho pendurada na parede e discorrer sobre os adesivos coloridos com os quais divulgou por anos as cerca de 300 leis que aprovou na Casa. Ele fala sobre o primeiro revés eleitoral, conta histórias de quatro décadas no parlamento e dos anos como ministro de Lula, aborda o futuro e revela ser um revolucionário que gosta de conservar hábitos e amizades.
São 40 anos de mandato, dez reeleições seguidas, como você recebeu a derrota?
Eu já tive muitos reveses na minha vida. Fui preso no tempo da ditadura, fui exilado no Chile e preso novamente logo depois do golpe por lá. Também vivi aqui o bolsonarismo, que na área ambiental foi um desastre. Então, estou acostumado com sucessos e reveses. Nessa campanha específica, eu não estava esperando isso. Mas todo mundo que concorre tem que estar aberto a essa possibilidade. Deputado não é profissão, é uma representação por um período determinado, você pode ou não ser reconduzido. Meu placar geral está 10 a 1. Não é mau.
Você já conseguiu analisar as razões da derrota?
São várias. Teve o “já ganhou”, que tira voto. A pessoa pensa: “Ele já está eleito, vou votar em outro”. Teve também amigos que disseram: “Dessa vez vou votar em uma mulher”, o que é bastante válido, aliás. Na última eleição, o PSB tinha Freixo e Molon, um para governador e outro para senador. Dessa vez, estávamos meio a céu aberto em matéria majoritária.
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E o que fazer daqui para frente, fora da Alerj pela primeira vez desde 1986?
A eleição foi domingo e nos três dias seguintes eu já tive quatro propostas. O que sei é que não vou conseguir ficar sem fazer alguma coisa. Vou ficar me coçando. Tive uma proposta do reitor eleito da UFF, Roberto Salles, que me convidou para coordenar a área de sustentabilidade na gestão dele. É uma coisa que não descarto. Também tive uma proposta para ter um desses canais de entrevistas, tipo podcast. Achei interessante. Há proposta para fazer consultoria na área ambiental e uma outra para escrever um livro.
Depois da prisão e do exílio, você e outros ativistas voltaram com pautas que não eram tão debatidas por aqui, como o meio ambiente.
Sim, quando comecei no movimento estudantil a questão ambiental não era uma pauta importante para nós. Estou falando de 1967, 1968. No exílio, entrei em contato com os movimentos ambientalistas, feministas, pacifistas... Comecei a ligar a questão social à questão ambiental. No retorno ao Brasil, foi natural assumir essas pautas.
Nesses 40 anos de Alerj você aprovou cerca de 300 leis, uma marca e tanto. Lembra qual foi a primeira?
Foi uma lei pedida pelo Betinho (o sociólogo e ativista dos direitos humanos Herbert de Souza), de controle do sangue. Isso foi em 1987. Naquela época, no início da propagação do HIV, o sangue não era testado, e isso fez muitas vítimas entre hemofílicos. A lei determinava a testagem de todo material antes de ser colocado nos hemocentros.
Entre tantas leis, destacaria alguma?
Uma das mais importantes foi a lei do passe livre. É muito relevante pelo alcance, porque beneficia milhares de estudantes, idosos e pessoas com deficiência. Foi uma briga pesada com as empresas de transporte.
Mais alguma?
Fui autor de uma das primeiras leis do Brasil sobre direitos LGBTQIA+. Na verdade, foram duas. Uma pune estabelecimentos que discriminam, é de 1999. Outra garante direitos previdenciários para casais homoafetivos idênticos aos dos casais heterossexuais. Também considero muito importante a lei da cannabis medicinal, que foi a primeira lei do Brasil sobre o tema.
Como aprovar a lei da cannabis medicinal, por exemplo, em uma Alerj conservadora?
Sabia que o governador iria vetar a lei e que teria que derrubar o veto. Eram necessários 36 votos, e a esquerda e a centro-esquerda juntas tinham 18. Chamei os deputados mais conservadores, inclusive pastores e delegados, para uma audiência pública. Eles conversaram com as famílias. Havia mães contando que os filhos tinham dezenas de convulsões por dia e que, com o óleo de canabidiol, a qualidade de vida deles mudou. Funcionou. O Cláudio Castro vetou e nós derrubamos o veto.
Você teve algum grande antagonista nesses 40 anos?
Tive vários. Um deles foi o Sivuca (José Guilherme Godinho Sivuca Ferreira, policial e político). Ele dizia que quando eu tratava de questões LGBTQIA+ era tudo em causa própria. Fez várias ações contra mim.
E a história dos animais soltos na Assembleia?
Foi no episódio de estouro da fortaleza do Castor (o contraventor Castor de Andrade). Apareceu uma lista com os nomes de deputados que recebiam dinheiro do jogo do bicho. Um deles era o Nader. Tentei montar uma CPI, mas não consegui. Então fiz uma coisa que, se fizesse hoje, provavelmente seria processado pelas entidades de defesa dos animais: soltei na Assembleia os bichos do jogo do bicho, os animais reais. Tinha galo, coelho. Os seguranças corriam atrás dos bichos. Fui ao microfone e coloquei a música dos Titãs: “Bichos escrotos”.
Nessa época houve também a história com o então deputado Farid Abrão David...
Sim. Ele era ligado aos bicheiros de Nilópolis. Quando saiu a lista dos deputados que recebiam do bicho, fui perguntar a ele: “Farid, como você não está nessa lista?” Ele respondeu: “Minc, eu tinha você como um dos deputados mais brilhantes, mas agora você acabou para mim”. Perguntei por quê. Ele respondeu: “A lista é de quem recebia. Eu é que pagava para eles”. Foi aí que percebi que realmente não tinha entendido a lógica da lista.
Você acha que a Assembleia mudou nesses 40 anos?
Piorou muito. Hoje tem um monte de Sivucas, muito piores que ele até. A representação decaiu consideravelmente.
Carlos Minc: 40 anos de Alerj
Alguma história curiosa do tempo que passou em Brasília como ministro pode ir para um futuro livro?
Eu era ministro do Meio Ambiente, e Gil era ministro da Cultura. Os dois ministérios ficavam no mesmo prédio. Curiosamente, meu nome é o mesmo da sigla do Ministério da Cultura, Minc. Então as pessoas iam falar com o Gil, chegavam na recepção e diziam que iam ao “Minc”, aí o pessoal mandava para mim (risos). Eu sacaneava o Gil e dizia: “Está tudo dominado aqui. É Minc 1 e Minc 2”. Sou muito amigo do Gil, e a gente fazia uma dobradinha perfeita entre cultura e meio ambiente. Eu criava uma reserva extrativista de seringueiros no Amazonas, e o Gil ia lá e colocava um ponto de cultura. Essas relações entre cultura e meio ambiente são essenciais.
Seu colete virou marca registrada. Como começou essa história?
Comecei a usar colete em Lisboa, quando estava exilado. No início (na Alerj), eu usava paletó. Depois comecei a usar a peça. Uma pessoa perguntou se o regimento permitia. Respondi que o colete era um paletó reduzido. As pessoas sabem que sou doido por coletes, trazem de presente quando viajam. Tenho vários de países onde nunca pisei. Atualmente tenho 96. Tenho modelos para diferentes ocasiões. Quando vou às marchas da maconha, por exemplo, tenho um com referências à Jamaica, ao Bob Marley.
Pretende voltar a disputar uma eleição?
Não. Acho que cumpri um ciclo muito longevo. Há uma renovação natural. Temos deputados e deputadas excelentes. Quero que alguns se tornem coautores de projetos meus. Ainda tenho mais de 400 em andamento.