Resumo:
A notícia aborda a ameaça às rotas marítimas globais devido a conflitos geopolíticos e crises climáticas, destacando o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques no Mar Vermelho que impactam o preço do petróleo e a economia global. O texto não traz informações sobre rodovias, custos de diesel ou pedágio para o transporte rodoviário, regras da ANTT, fiscalização ou documentos de motoristas e veículos.
Principais tópicos abordados:
* Geopolítica e segurança das rotas marítimas internacionais.
* Impacto de guerras e conflitos no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho.
* Choque energético global e oscilação no preço do petróleo.
* Efeitos da crise climática em vias navais (como o Canal do Panamá).
Vitais para a economia global, rotas marítimas são ameaçadas por guerras, duelo entre potências e crise do clima
Garantias firmadas no passado para o livre trânsito de navios são ignoradas por cálculos estratégicos e de sobrevivência; El Niño forçou mudança nas operações no Canal do Panamá
Dias depois de EUA e Israel iniciarem uma guerra total contra o Irã, jogando o Oriente Médio em mares de incerteza ainda longe de serem apaziguados, Teerã cumpriu uma promessa de décadas, anterior à Revolução Islâmica de 1979: o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passavam 20% das exportações globais de petróleo e gás. A decisão causou o maior choque energético em décadas, e ressaltou a fragilidade de algumas das principais vias navais do planeta, por questões militares, disputas entre potências ou pelos efeitos da crise climática.
— Hoje, as vias marítimas são vistas como um alvo válido para criar o máximo de dano à cadeia adversária. A cadeia global de valores adversários, a cadeia de suprimentos — disse ao GLOBO o professor de Ciências Militares Sandro Teixeira Moita, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme). — Vemos um retorno do uso desses pontos de estrangulamento como ferramenta de pressão para que países ou outros atores se comprometam com determinadas agendas.
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No caso do Irã, a ideia por trás do fechamento de Ormuz era compartilhar os custos dos ataques americanos e israelenses. Ao barrar os pouco mais de 130 navios que cruzavam o estreito diariamente, Teerã criou problemas para seus vizinhos no Golfo Pérsico, também atingidos por mísseis e drones, e para todo o mundo. O preço do petróleo disparou, elevando a inflação e freando as previsões para o avanço da economia em 2026. Para Donald Trump, o presidente americano, um elemento a mais no mau humor dentro dos EUA com a guerra, até entre os republicanos.
"O caso também evidencia que a superioridade naval, por si só, não assegura liberdade de ação irrestrita. Uma força naval inferior pode explorar a vantagem geográfica de um estreito para dificultar a atuação de uma força superior e impor custos desproporcionais aos meios empregados. Essa assimetria permite que um ator militarmente mais fraco amplie sua capacidade de pressão sobre adversários mais poderosos", apontou uma análise da Marinha do Brasil compartilhada com o GLOBO.
Mas o fechamento cobrou seu preço ao Irã. Assim como os demais petroleiros, os seus navios também eram barrados na região do Mar Arábico, e o posterior bloqueio naval determinado por Washington reduziu brutalmente os rendimentos com petróleo e gás. Uma operação militar liderada pelos EUA criou um corredor relativamente seguro em Ormuz, perto da costa de Omã, permitindo que o volume de exportações atingisse os maiores níveis em meses. A exigência de cobrança de pedágio por Teerã — proibida pelas leis internacionais — agora raramente é citada.
— Na verdade, se vê que o bloqueio de Ormuz foi uma medida desesperada por parte do Irã — opina Sandro Moita.
A cerca de dois mil km de Ormuz, outro gargalo se tornou ativo de guerra. O Estreito de Bab el-Mandeb, entrada do Mar Vermelho e caminho preferencial entre o Oceano Índico e a Europa (por onde transitam 12% do comércio marítimo global), é ameaçado pelos houthis, a milícia que ocupa parte do Iêmen.
"O envolvimento em uma guerra civil acrescenta outra dificuldade, pois os objetivos internos do grupo e suas relações com apoiadores externos podem influenciar suas decisões sobre a navegação e dificultar a negociação de compromissos duradouros", destaca a Marinha.
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Aliados do Irã, eles atacam navios na região desde 2023, como parte da reação à guerra em Gaza e, mais recentemente, da coletivização dos custos do conflito no Golfo Pérsico. Hoje, a milícia é alvo de uma contraofensiva do governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, com apoio da Arábia Saudita, e não teria mais o controle sobre a passagem.
— Ficou claro que esse bloqueio dos houthis é uma forma de fazer a Arábia Saudita sangrar — diz Moita, citando os anos de intervenção saudita contra a milícia, que contribuíram para uma das maiores crises humanitárias do planeta.
A crise no Oriente Médio, embora guarde características próprias, jogou luz sobre outra via crucial, e que está no meio da disputa entre as maiores potências do planeta, EUA e China. Com cerca de 900 km, o Estreito de Malaca engloba quatro países — Indonésia, Malásia, Cingapura e Tailândia — e conduz por suas águas até 25% do comércio marítimo internacional.
Mesmo antes do fechamento em Ormuz, o estreito surgia em análises com tons de preocupação. Em 2003, o então presidente chinês, Hu Jintao, mencionou o “Dilema de Malaca”, se referindo à dependência que o país tem da rota: em 2024, 21% das exportações e 14% das importações da China transitaram por ali. Em resposta, Pequim lançou iniciativas voltadas à diversificação de vias de importação e exportação, inclusive no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota, mas um hipotético bloqueio ainda seria devastador.
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Em abril, Indonésia e Estados Unidos assinaram um pacto de segurança que mencionava a livre passagem por Malaca e dava aos EUA uma posição militar estratégica em uma área onde os chineses querem exercer influência. Dias depos da assinatura, um navio da Marinha americana transitou pelo estreito, alegando "operações de rotina na 7ª Frota dos EUA", baseada no Japão.
— Considerando a importância capital do estreito para a economia chinesa, é óbvio que isso não foi visto de boa maneira por Pequim, e cria uma frente de tensão com a China que pode criar problemas — destacou Moita.
Em outro ponto crítico, o Mar Negro, a fome é um efeito direto da guerra. A retomada nos ataques contra navios russos e ucranianos pode, de acordo com relatório da Oxford Economics, levar a uma queda de 17% nas exportações globais de grãos, especialmente para países dependentes desses insumos a curto prazo.
"Assim como em Ormuz e Bab el-Mandeb, a interrupção ou o risco de interrupção de uma rota marítima estratégica produz efeitos que ultrapassam a área do conflito e atingem os preços, os seguros, os fretes e as cadeias de abastecimento. A principal lição é que a segurança das Linhas de Comunicação Marítimas não depende apenas da existência de uma rota, mas da capacidade de mantê-la aberta e previsível mesmo em situações de crise", apontou a análise da Marinha.
Na terça-feira, um navio civil afundou perto da costa búlgara, e autoridades dizem que ele foi atingido por drones, com a Rússia surgindo como principal suspeita. Os europeus acreditam que o Kremlin esteja testando a coesão da Otan (da qual a Bulgária faz parte) em uma série de incidentes, como um drone explosivo localizado em um aeroporto alemão, e fazem planos de contingência para uma ação militar direta de Moscou nos próximos anos.
— Como há muito defendo, se esta guerra não for interrompida a tempo, continuará a expandir o seu alcance geográfico e a aumentar os riscos, incluindo o risco de um conflito global — declarou o premier búlgaro, Rumen Radev, na semana passada.
Personagem de outro tipo de conflito, o Canal do Panamá — ligação estratégica entre os oceanos Atlântico e Pacífico — se viu em meio à ofensiva de Trump contra a presença chinesa na América Latina. O republicano ameaçou tomar à força a passagem, e pressionou o governo local para que afastasse uma empresa de Hong Kong da administração de dois portos nas extremidades do canal.
A retaliação não tardou, e embarcações panamenhas começaram a sofrer vistorias mais incisivas e serem retidos pelas autoridades chinesas. Uma subsidiária da CK Hutchison Holding, que perdeu a concessão dos portos, cobra US$ 2 bilhões em indenizações do governo do Panamá, e a gigante Cosco Shipping parou de operar em Balboa, um dos terminais envolvidos na disputa.
"A China dispõe de meios e ferramentas suficientes, bem como de força e capacidade bastantes, para defender uma ordem econômica e comercial internacional justa e equitativa", declarou o Escritório para Assuntos de Hong Kong e Macau em sua conta nas redes sociais, em fevereiro.
Os problemas além de disputas geopolíticas. Em agosto, a operadora da passagem anunciou um corte no número de navios autorizados a fazer a travessia, citando a seca provocada pelo fenômeno El Niño. E como destacou ao GLOBO Samuel Muñoz, professor do Departamento de Ciências Marinhas e Ambientais da Universidade Northeastern, as mudanças no tráfego serão rotina, e exigirão investimentos em infraestrutura, sistemas de alerta e de resiliência.
— Estas novas restrições de tráfego não são um evento isolado; elas se encaixam em um padrão que identificamos — afirmou — Nossas projeções publicadas indicam que, em média, considerando diversas simulações de modelos climáticos, espera-se uma redução na disponibilidade de água do canal nas próximas décadas, tendência que se intensifica à medida que o aquecimento aumenta.