No fim, proteger crianças e adolescentes no ambiente digital deveria ser tão natural quanto ensiná-los a atravessar a rua
Por Claudio Martinelli
O debate sobre a proteção de jovens vem ganhando fôlego no Brasil com o vigor do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital). Entre os avanços trazidos pela proposta está a ideia de que segurança e proteção de dados precisam fazer parte dos produtos e serviços desde o início, e não como um ajuste posterior. Ainda assim, a proteção mais eficaz continua dependendo da combinação entre educação digital e o envolvimento ativo de pais e responsáveis no dia a dia das crianças. Afinal, em qualquer sistema de segurança, o elo mais fraco são as pessoas.
Crianças entre 8 e 10 anos passam, em média, seis horas por dia nas telas, enquanto pré-adolescentes de 11 a 14 anos ficam cerca de nove horas conectados. Isso acaba se tornando um grande desafio para os pais e responsáveis, pois smartphones, tablets e computadores deixaram de ser apenas instrumentos de entretenimento e se tornaram portas de acesso ao novo convívio social entre os jovens.
Embora plataformas digitais e serviços tenham um papel importante na implementação de medidas de proteção, a atuação dos pais segue sendo central. Observar, orientar e utilizar ferramentas de controle parental, como definição de limites de tempo de tela, filtragem de conteúdo inadequado e monitoramento de interações, é tão importante quanto supervisionar uma criança no ambiente físico. Costumo dizer que ninguém deixaria um filho sozinho no centro da cidade e no, ambiente digital, essa lógica precisa ser a mesma.
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Tivemos o privilégio de participar ativamente da consulta pública do ECA Digital. Neste espaço, pudemos contribuir com alguns pontos críticos da segurança de crianças e adolescentes, como geolocalização, uso de dados biométricos e mecanismos de aferição de idade online. Também consideramos especialmente relevante a incorporação dos princípios de safety by design e privacy by design, além de incentivar práticas de security by design nas plataformas.
Na prática, isso significa que plataformas e serviços devem nascer mais seguros e com configurações de privacidade já ativadas por padrão, reduzindo a exposição dos usuários, principalmente daqueles que ainda não têm maturidade para gerenciar esses riscos sozinhos.
Precisamos estar atentos a tudo que envolve os menores de idade nesse ambiente, como também o armazenamento de dados. Os dados pessoais de crianças têm alto valor para cibercriminosos, que podem explorá-los em fraudes, como a abertura de contas bancárias em nome da vítima. Em muitos casos, esses crimes só são descobertos anos depois, às vezes até uma década após a exposição das informações.
Acreditamos que a primeira e mais valiosa linha de defesa é a conscientização. Ensinar a criança a pensar antes de clicar em links, a não compartilhar dados pessoais e a conversar com os pais sobre situações suspeitas deve fazer parte da rotina. Criar uma relação de confiança, com combinados claros sobre o uso da tecnologia, é tão importante quanto estabelecer regras. Essa educação vai seguir com o jovem até a vida adulta, fazendo com que ele tenha boas práticas digitais no âmbito pessoal e profissional em um futuro.
No fim, proteger crianças e adolescentes no ambiente digital deveria ser tão natural quanto ensiná-los a atravessar a rua. Exige atenção, diálogo, limites claros e cuidado. Com orientação adequada e as ferramentas certas, a internet deixa de ser um risco invisível e passa a ser um espaço seguro para aprender, explorar e crescer.
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Redação
Luísa Braga
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André Oliveira