O que Trump está fazendo com a Ucrânia é oposto do conservadorismo
Trair um aliado e favorecer Vladimir Putin com a compra de diesel que derruba sanções são atitudes que merecem repúdio da direita
Quais são exatamente os objetivos de Donald Trump? O que o presidente americano está fazendo com a Ucrânia é tão inominável que vários analistas procuram motivos “secretos”, como atrair a direita mais radical à la Tucker Carlson para votar nos republicanos nas eleições do próximo dia 3 de novembro ou, caso a surra nas urnas seja muito grande, ter alguém para empurrar a culpa, como Volodymyr Zelensky.
São explicações esotéricas demais que empalidecem diante da gravidade dos fatos. Resumindo-os: Trump anunciou a compra de diesel da Rússia, sabotando toda a arquitetura das sanções contra Vladimir Putin. Também aconselhou os ucranianos a procurar outro presidente, mais disposto a um acordo de paz – obviamente, com cara de rendição. Anunciou um cessar-fogo energético sem nada combinado com as partes. E ameaçou cortar a venda de armas e o compartilhamento de dados de inteligência, o que deixaria a Ucrânia numa posição insustentável.
Tudo isso é o oposto do que a direita deveria querer. Estranhamente, o ódio a Zelensky que transparece nos posts de Trump é muito parecido com o exposto pela esquerda mais radical. A guerra na Ucrânia consagra os valores (e os interesses) conservadores. Nacionalismo, patriotismo, luta pela independência e – verdadeiramente – soberania, resistência a um autocrata agressivo e hostil aos objetivos do mundo ocidental.
Todo mundo sabe que Trump é altamente heterodoxo, mas a cisão com as ideias conservadoras que suas atitudes em relação à Ucrânia evocam merece o espanto com que foi recebida. Inclusive porque o motivo mais óbvio, influenciar no preço do diesel até a eleição, dentro de pouco mais de três semanas, não tem tempo hábil para se concretizar. Os volumes envolvidos também são muito pequenos – bastaria para compensá-los, por exemplo, aumentar em apenas 4% as exportações provenientes do Canadá. Os próprios Estados Unidos exportam diesel.
IDEOLOGIA DISTORCIDA
Sem contar que o óleo russo não pode chegar diretamente aos Estados Unidos. Uma lei datada de 2022, no contexto da guerra na Ucrânia, estabelece que para que esse tipo de exportação volte a acontecer, o presidente tem que certificar ao Congresso três condições: a Rússia se retirou da Ucrânia, reconheceu a soberania do país invadido e não representa mais uma ameaça para a Otan.
Lembremos que Zelensky, com extraordinária coragem e dignidade, personifica a resistência ucraniana, mas tem por trás um establishment político e, principalmente, militar para o qual são inadmissíveis concessões como as exigidas por Trump. A Ucrânia já aceitou, implicitamente, que a faixa de 20% de seu território ocupada pelos russos não vai voltar mais. Exigir que deixe de exercer seu direito à reação, através dos ataques à infraestrutura energética, ultrapassa os limites aceitáveis. Zelensky poderia até sofrer um golpe militar se cedesse demais.
Mas os instrumentos à disposição de Trump são devastadores. Sem as armas americanas, que os aliados europeus compram e redirecionam para a Ucrânia, o país ficaria de mãos amarradas. E sem os dados de inteligência, estaria cego taticamente. Zelensky sabe perfeitamente disso e sacou uma resposta extrema: estaria disposto a convocar eleições em troca de um cessar-fogo de sessenta dias. Os russos tripudiaram.
Poderia Trump recuar? Ele já suspendeu o compartilhamento de informações depois da desastrosa reunião com Zelensky no Salão Oval no começo do ano passado. Depois, cancelou o cancelamento.
No momento, a situação é esta: Trump trata Zelensky como um adversário e Putin como um amigão. Fora a “direita à la Tucker Carlson”, como são chamados os malucos apaixonados pelo líder russo e por uma ideologia cada vez mais distorcida, nenhum defensor de princípios conservadores pode gostar disso e tem o dever moral de dizê-lo.