Slop grenade, a bomba de IA que explode no colo do colega de escritório
Pesquisas mostram que boa parte do tempo economizado com inteligência artificial acaba sendo consumida para corrigir trabalhos malfeitos
A vida corporativa na era da inteligência artificial vive seu momento batata quente. Lembra dessa brincadeira analógica? Uma roda, várias pessoas passando um objeto para o colega ao lado, ao som de uma música. Perde quem estiver com ele na hora que a canção para.
Troque a batata quente por textos, tarefas, memorandos, código, relatórios feitos em tempo recorde com modelos de IA, e chegamos ao que vem sendo chamado de slop grenade – uma granada de porcaria, por assim dizer.
A pessoa resolveu a urgência dela com ajuda da IA, não revisou como devia e arremessou a bomba no seu colo. Na lista dela, a tarefa consta como concluída. Mas não porque a tecnologia foi bem aplicada, e sim porque o trabalho de análise foi passado adiante, tal e qual a batata quente que mencionei.
O que é e de onde saiu “slop grenade”?
O termo “slop grenade” ganhou força nas últimas semanas por causa de Tobi Lütke, CEO da Shopify, que o usou no podcast The Knowledge Project. Mas já circulava há mais tempo, tanto que existe até um site chamado No Slop Grenade, criado pelo designer Stefan Neubig. Nos dois casos, o sentido é esse que descrevi acima: “fiz às pressas, joguei a bucha para o próximo da fila”.
Ironicamente, muitas vezes esse “próximo da fila” acaba recorrendo à IA para resolver e promover uma espécie de “regift from hell” para a pessoa que terá de pegar esse trabalho logo depois. Não raras vezes, segue assim até alguém precisar refazer o troço na íntegra, da maneira mais humana possível. E, nesse trajeto, muitas horas de trabalho são gastas porque a cada bola de neve em que mais IAs entram no processo, o slop pode ficar mais slopento (ok, minha contribuição de neologismo para seu dia, leitor).
A conta do retrabalho chega
Não precisa ser gênio em gestão para saber que mais gente perdendo tempo significa prejuízo, certo? Um relatório da Workday que analisou a rotina de 3.200 funcionários de empresas com faturamento a partir de US$ 100 milhões concluiu que cerca de 37% do tempo economizado com IA volta como retrabalho.
Porcentagem às vezes não traduz claramente o drama, então vou dizer de outro jeito: é como se a cada dez horas ganhas quase quatro fossem gastas corrigindo, reescrevendo e verificando o que a máquina entregou.
Outro relatório, da BetterUp, feito com o Stanford Social Media Lab e publicado na Harvard Business Review em 2025 (que batizou o fenômeno de workslop, diga-se) ouviu 1.150 trabalhadores de escritório nos Estados Unidos e viu que 40% haviam recebido esse tipo de material no mês anterior, com cada episódio consumindo quase duas horas para ser resolvido, o que os pesquisadores estimaram em US$ 186 por funcionário afetado ao mês, ou mais de US$ 9 milhões por ano numa empresa de 10 mil pessoas.
A culpa é de quem usa (mal) a IA
Detratores das IAs dirão que é culpa da tecnologia, e embora eu seja um entusiasta que enxerga as imensas falhas das máquinas, aqui devo rebater. Porque, nesse caso, a culpa é totalmente humana. Se o preguiçoso original tivesse feito seu trabalho direito, muitas granadas de porcaria não teriam perdido seus pinos e explodido no dia de trabalho do coleguinha seguinte.
O que nos traz a algo que comento sempre aqui, mesmo porque é tema da minha pesquisa de doutorado: letramento em IA, que na minha tese batizei de literacia generativa, se torna cada vez mais imprescindível. Não basta jogar IA por cima de processos malfeitos, de rotinas de trabalho ruins. As empresas precisam ensinar as pessoas a usar tecnologia em favor próprio. Leia-se para fazer as tarefas MELHOR, em vez de apenas dar um tapa na peteca e sair correndo.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda