A notícia trata da aquisição de 44,9% das ações da companhia aérea TAP Air Portugal pelo grupo alemão Lufthansa, em um negócio que chega a € 1,201 bilhão. O conteúdo foca exclusivamente no setor de aviação civil internacional e fusões empresariais.
Principais tópicos abordados:
- Compra de ações da TAP Air Portugal pela Lufthansa.
- Privatização parcial e controle acionário pelo governo de Portugal.
- Investimentos no setor aéreo e expansão de rotas internacionais.
Lufthansa vence disputa e compra quase metade das ações da TAP
Empresa aérea alemã ofereceu 16% a mais que a Air France-KLM. Negócio chega a € 1,201 bilhão (cerca de R$ 6,74 bilhões)
O governo de Portugal anunciou nesta quarta-feira que a alemã Lufthansa venceu a disputa para comprar 44,9% da TAP Air Portugal. A Air France-KLM também estava na disputa pela participação na principal companhia aérea portuguesa.
A proposta da Lufthansa foi 16% maior do que a apresentada pela Air France-KLM. A operação foi de € 1,201 bilhão (R$ 6,74 bilhões) nesta primeira fase. O governo português continuará mantendo o controle da companhia, enquanto a Lufthansa ficará responsável pela gestão executiva e operacional da TAP.
A proposta resulta em uma valorização total da companhia de € 2,552 bilhões (R$ 14,32 bilhões). Em 2023, a avaliação da TAP era de entre € 700 milhões (R$ 3,93 bilhões) e € 1,709 bilhão (R$ 9,59 bilhões). Posteriormente, esse valor caiu para € 350 milhões (R$ 1,96 bilhão), segundo o governo português. A integração coloca a TAP dentro do maior grupo europeu e do quarto maior grupo global do setor.
Na segunda fase, prevista para ocorrer até 2028, o governo português poderá trocar o capital remanescente por uma participação acionária na holding do grupo. A oferta para essa etapa inclui mais € 480 milhões (R$ 2,685 bilhões), além da possibilidade de uma permuta de ações, o que poderá colocar o governo português como segundo maior acionista da Lufthansa.
A proposta da empresa alemã inclui ainda outros investimentos, como € 500 milhões (R$ 2,796 bilhões) destinados à criação de uma nova escola de pilotos, além de um centro de inovação e de serviços corporativos.
5% das ações reservadas a trabalhadores
Com a nova configuração, 5% das ações serão reservadas preferencialmente aos trabalhadores da TAP. Os 50,1% restantes permanecerão nas mãos do Estado português, garantindo a maioria do capital e o controle da companhia.
A fatia da Lufthansa poderá ser ainda maior caso os funcionários da TAP abram mão das ações. A marca TAP será preservada, assim como a conectividade com as regiões autônomas e o reforço das ligações estratégicas.
Nas últimas semanas, a Lufthansa e a Air France-KLM apresentaram ofertas finais melhoradas para adquirir uma participação na TAP. A companhia portuguesa é um alvo atraente para os maiores grupos aéreos da Europa devido à sua extensa rede de voos para a América Latina e a África, especialmente por sua ampla malha de rotas para o Brasil. Uma aquisição também fortaleceria a posição de qualquer uma das duas companhias no sul da Europa.
No Brasil, a TAP atende 15 cidades, que somam 17 rotas com voos para Lisboa e Porto. O Brasil responde por 30% das receitas do grupo português. Já a Lufthansa opera voos do Rio de Janeiro e de São Paulo para a Alemanha.
Autoridades portuguesas argumentam que a companhia aérea, fundada em 1945, precisa fazer parte de um grupo maior para ganhar escala e garantir seu futuro no longo prazo. A empresa, que recebeu bilhões de euros em ajuda estatal durante a pandemia, registrou prejuízo de € 99 milhões (US$ 112 milhões) no primeiro semestre, à medida que os custos mais elevados de combustível pressionaram seus resultados.
UE terá até 24 meses para analisar venda
Com a decisão, as atenções se voltam agora para a Comissão Europeia, cuja análise do negócio deve levar entre 18 e 24 meses. A cogestão na TAP deve começar ainda neste ano, segundo fontes.
Em setembro, a Lufthansa havia dito que seu objetivo era apoiar o crescimento da TAP, aumentar sua competitividade e reforçar seu papel como companhia aérea de bandeira de Portugal. Segundo fontes, a avaliação é que a Lufthansa tem maior capacidade de investimento e vem defendendo a construção de um novo aeroporto em Lisboa o mais rápido possível.
Com 737 aeronaves, a Lufthansa tem hubs em Frankfurt, Munique, Zurique, Viena, Bruxelas e Roma. A companhia é membro da Star Alliance, aliança global de companhias aéreas. O grupo reúne ainda empresas como Swiss, Austrian Airlines, Brussels Airlines, ITA Airways e Eurowings.
Já a Air France-KLM afirmou que faria de Lisboa seu hub exclusivo para o sul da Europa e fortaleceria a conectividade da TAP, especialmente no Atlântico Norte. Em publicação nas redes sociais, o CEO global da Air France, Ben Smith, destacou que o Brasil seria central nessa estratégia de transformar Lisboa em um hub e que a parceria com a Delta Air Lines ampliaria a conectividade de Portugal:
"Queremos construir uma ponte ainda mais forte através do Atlântico, tanto ao Norte quanto ao Sul, especialmente com o Brasil. Com o apoio da Delta Air Lines e de nossa joint venture transatlântica, a TAP estaria conectada a uma rede de mais de 375 destinos, aproximando Portugal de novas cidades, clientes e oportunidades em todo o continente americano".
Marca será preservada, diz TAP
Em nota, a TAP diss que a futura entrada do Grupo Lufthansa vai reforçar suas oportunidades de desenvolvimento e a sua posição nos mercados em que opera. "A proposta selecionada contempla a preservação da marca, da sede em Portugal, do hub em Lisboa, bem como o desenvolvimento da operação no Porto, a expansão da frota e a relevância da área de Manutenção e Engenharia", disse a empresa portuguesa.
Segundo a TAP, a decisão constitui uma etapa importante do processo de reprivatização, que prosseguirá com a assinatura dos acordos contratuais e a obtenção das necessárias aprovações regulatórias, até à conclusão da operação e à entrada efetiva do novo acionista no capital da TAP.
Durante este período, a TAP manterá o foco na execução do plano estratégico 2026-2035, que continuará a orientar a gestão da companhia nesta fase. Em nota, Carlos Oliveira, presidente do Conselho de Administração da TAP, disse que a empresa "chega a este momento depois de um percurso exigente, marcado por profundas transformações e pelo esforço e dedicação dos seus trabalhadores, a quem quero deixar uma palavra especial de reconhecimento".
Lufthansa: "Estratégia de internacionalização"
Em nota, a Lufthansa disse que pretende expandir as ligações de Portugal, em particular com a América do Norte e a América Latina. Em nota, Carsten Spohr, CEO da Deutsche Lufthansa AG, disse que a TAP é uma das principais transportadoras nas rotas do Atlântico Sul. "Estamos prosseguindo consistentemente com nossa estratégia de internacionalização e fortalecendo de forma sustentável nossa posição no Atlântico Sul", afirmou o executivo.
Segundo especialistas, a TAP ganha acesso a capital, escala internacional, potencial para expansão da frota e fortalecimento das conexões. A Lufthansa, por outro lado, passa a ter acesso estratégico ao mercado brasileiro e às rotas para a América Latina e a África, além de maior alcance da rede global.
-O consumidor ganha mais possibilidade de conexões, integração de programas de fidelidade e melhorias de serviço, mas em contrapartida, há riscos de concentração e nenhuma garantia de redução das tarifas - afirmou o o consultor Marcos Soares.
Para João Ribeiro, analista da JR Aviação, é preciso manter o hub de Lisboa no centro da estratégia entre a Europa e o Brasil, já que a rota entre a capital de Portugal e as cidades brasileiras é a mais curta ligando os continentes e já tem um demanda estabelecida.
-Além de Lisboa, é preciso reforçar as operações do Porto. A TAP precisa ganhar escala e aumentar os investimentos de forma a atrair mais passageiros, o que pode ajudar na conexão para outros países - afirma Ribeiro.