Na Totvs, agentes de IA mudam o trabalho de desenvolvedores e entram nas metas de todas as áreas
Vice-presidente diz que há 140 agentes em RH e marketing e que todas as diretorias precisam mostrar resultado com a tecnologia
A inteligência artificial (IA) já está mudando não apenas a forma como a Totvs desenvolve seus produtos, mas também o trabalho de seus funcionários. Alguns desenvolvedores de software, que antes dedicavam boa parte do tempo a escrever código, passaram a supervisionar agentes de IA. Ao mesmo tempo, as áreas de recursos humanos (RH) e marketing da companhia já contam com 140 agentes em diferentes estágios de utilização.
As informações foram compartilhadas pela vice-presidente de relações humanas e marketing da Totvs, Vivian Broge, em entrevista ao IT Forum durante o Universo Totvs 2026. Segundo a executiva, a empresa está reorganizando atividades para que funcionários e sistemas de IA trabalhem juntos.
A mudança vai além da adoção de ferramentas para acelerar tarefas. A Totvs também estabeleceu metas relacionadas ao uso da tecnologia em todas as suas diretorias, com foco em resultados para o negócio.
“Os nossos próprios desenvolvedores de software, que antes colocavam a mão na massa programando, alguns deles mudaram de função e passaram a supervisionar os agentes. É o human in the loop, como dizemos”, afirma Vivian.
Na prática, isso significa que parte dos profissionais deixa de executar diretamente determinadas tarefas e passa a acompanhar o trabalho realizado pela IA. A supervisão humana continua necessária para avaliar resultados, corrigir problemas e decidir quando uma atividade precisa de intervenção.
Leia também: Totvs aposta em um “sistema operacional de gestão” para ir além do ERP
RH e marketing já utilizam 140 agentes de IA
Nas áreas lideradas por Vivian, a Totvs contabiliza 140 agentes de IA. Parte deles já foi testada e disponibilizada para uso, enquanto outros ainda estão em fase de avaliação.
Entre as aplicações está um assistente para a elaboração de Planos de Desenvolvimento Individual (PDIs), documentos usados para definir quais habilidades um funcionário precisa desenvolver e quais passos pode seguir para avançar na carreira.
De acordo com Vivian, mais de 3 mil PDIs já foram elaborados com apoio dessa ferramenta. O sistema sugere caminhos de desenvolvimento, mas não toma as decisões sozinho.
“Ele faz sugestões, mas é nessa troca entre a liderança e a própria pessoa que se refina este plano que está sendo feito”, explica.
Outra iniciativa é o Potenciar, agente que analisa descrições de cargos e identifica atividades com potencial de automação. A proposta é usar essas informações para repensar a distribuição das tarefas e a organização das equipes.
A Totvs também utiliza agentes em outras operações. Durante o evento, Vivian cita aplicações no suporte relacionado à reforma tributária, no desenvolvimento de software e no marketing da RD Station, que conta com quatro agentes trabalhando em conjunto com profissionais.
No atendimento, segundo a executiva, parte das novas demandas passou a ser resolvida pelos agentes logo no primeiro contato.
Todas as diretorias têm metas de IA
A adoção da tecnologia também passou a fazer parte das metas internas da Totvs. Segundo Vivian, todas as diretorias precisam demonstrar resultados com o uso de IA, o que exige olhar não apenas para as ferramentas, mas para a maneira como o trabalho é realizado.
“Todas as nossas diretorias têm metas de uso com resultado efetivo de inteligência artificial. E isso passa por redesenharmos processos e pensarmos como vai ser a Totvs do amanhã”, afirma.
Para preparar os funcionários, a companhia oferece conteúdos sobre dados e IA em sua universidade corporativa. Há treinamentos obrigatórios e trilhas específicas para quem deseja aprofundar conhecimentos em áreas como cibersegurança.
Vivian afirma que a organização já passou por uma formação básica em IA. O número de colaboradores capacitados e os indicadores de resultado dos treinamentos não foram detalhados na entrevista.
A empresa também acompanha os efeitos da tecnologia sobre a produtividade. Um dos indicadores utilizados é a receita por colaborador, que relaciona o faturamento da companhia à quantidade de funcionários.
Segundo a vice-presidente, esse indicador apresentou crescimento significativo no último ano, mas ela não informou o percentual. Por isso, ainda não é possível determinar quanto desse avanço está diretamente relacionado à IA.
Quanto à avaliação de desempenho, Vivian afirma que a Totvs não precisou fazer uma nova mudança neste momento. A companhia já havia incorporado, anos atrás, critérios relacionados à IA e às competências humanas.
O que muda para quem está começando na tecnologia?
A automação também levanta uma questão para o mercado de trabalho: o que acontece com os profissionais que estão iniciando a carreira, especialmente quando a IA consegue executar atividades mais simples?
Na avaliação de Vivian, as vagas de entrada não devem desaparecer em grande escala, mas as habilidades exigidas desses profissionais estão mudando.
“Eu acho que não vamos ver uma redução tão significativa das posições de entrada, mas certamente o que está sendo exigido dessas posições está em transformação”, diz.
Para a executiva, competências como pensamento crítico, criatividade, empatia e capacidade de resolver problemas ganham importância à medida que tarefas mais simples podem ser automatizadas.
A Totvs também participa da formação de novos profissionais por meio do Instituto Percorre, organização voltada à capacitação gratuita de jovens em situação de vulnerabilidade social. Segundo Vivian, quase 50 mil jovens passaram pela iniciativa ao longo de cerca de três décadas.
As trilhas de formação foram atualizadas para incluir temas como IA e cibersegurança.
Já entre os profissionais mais experientes, a demanda segue elevada por especialistas em engenharia de dados e arquitetura de tecnologia, áreas apontadas pela executiva como particularmente disputadas.
A IA reduzirá contratações na Totvs?
Apesar dos ganhos de produtividade e das mudanças nas funções, a Totvs ainda não tem uma resposta definitiva sobre o impacto da IA no tamanho de suas equipes.
Questionada se a companhia espera contratar menos pessoas nos próximos anos ou se a tecnologia deverá ampliar a demanda por profissionais, Vivian reconhece a dificuldade de prever esse cenário.
“É difícil de responder essa pergunta. Quem sabe essa resposta mente. Eu acho que nós estamos todos descobrindo como vai ser esse futuro. Mas sim, tem espaço para as duas coisas”, afirma.
A declaração indica que a empresa considera possíveis tanto a automação de atividades quanto a criação de novas funções. Por enquanto, porém, não foram apresentados números que permitam medir o efeito da IA sobre o total de empregos na companhia.
O que já aparece na operação da Totvs é uma mudança na divisão do trabalho: sistemas inteligentes assumem determinadas tarefas, enquanto profissionais passam a atuar mais na supervisão, na análise de resultados e na solução de problemas que exigem decisões humanas.
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