A Unitree Robotics, maior fabricante de robôs humanoides do mundo, estreou na Bolsa de Xangai nesta quarta-feira (19) com uma forte valorização. As ações da companhia chinesa encerraram o primeiro dia de negociação com alta superior a 460%.
Os papéis foram oferecidos inicialmente por 150,80 yuan (cerca de R$ 116) cada e terminaram o pregão cotados a 845 yuan (R$ 653).
Nas primeiras negociações, a valorização fez com que a capitalização da Unitree alcançasse aproximadamente 342 bilhões de yuan (R$ 264,7 bilhões). Em determinado momento do dia, as ações chegaram a acumular alta superior a 600%.
A oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) havia sido precificada no início deste mês. Com a operação, a empresa buscava levantar aproximadamente US$ 900 milhões (R$ 4,7 bi), com uma avaliação inicial em torno de US$ 9 bilhões (R$ 47 bi).
A aguardada estreia aconteceu no Star Market, segmento da Bolsa de Xangai voltado a empresas de tecnologia e frequentemente chamado de “Nasdaq da China”. A abertura de capital representa um marco para os planos de Pequim de desenvolver a indústria de robótica do país.
A Unitree não é a primeira fabricante chinesa de robôs humanoides a chegar ao mercado acionário, mas é a primeira do segmento a realizar uma estreia em bolsa na China continental.
Unitree: de quem estamos falando?
Fundada em 2016, a Unitree é oficialmente chamada Yushu Technology Co Ltd e tem sede em Hangzhou, no leste da China. A companhia ganhou uma posição importante no setor de robótica e também nos planos de Pequim para desenvolver tecnologias avançadas.
Seu portfólio inclui desde sensores e braços automatizados até cães robóticos e humanoides. No ano passado, a empresa enviou mais de 5,5 mil robôs humanoides ao mercado, em meio ao crescimento da demanda pela tecnologia.
A Unitree também está entre as poucas empresas do setor que conseguem obter lucro. Em 2025, registrou lucro líquido de 278 milhões de yuan (R$ 215 milhões).
Um dos fatores que colocam a fabricante chinesa em disputa direta com desenvolvedores dos Estados Unidos são os preços. A companhia produz robôs com características semelhantes às de concorrentes americanos, mas consegue oferecê-los por valores menores.
Hangzhou, onde fica a sede da Unitree, concentra um grupo de empresas de robótica que se beneficiaram de grandes investimentos governamentais. Esse apoio contribuiu para que o número de companhias chinesas do setor mais do que triplicasse entre 2020 e 2024, segundo o veículo de imprensa local China Daily.
Robôs humanoides atraem investimentos
Equipamentos industriais automatizados e aspiradores inteligentes já fazem parte da rotina de fábricas, armazéns e residências. Agora, porém, são os robôs humanoides que estão atraindo grandes volumes de investimentos.
Empresas como Tesla, BYD e Amazon trabalham no desenvolvimento de máquinas bípedes capazes de desempenhar atividades normalmente executadas por pessoas.
A Unitree comercializa humanoides desde 2023. No ano seguinte, colocou no mercado o G1, vendido por US$ 13,5 mil (R$ 70,4 mil).
Enquanto isso, grandes concorrentes americanos, incluindo a Tesla, de Elon Musk, ainda não começaram a entregar seus produtos.
China e EUA disputam mercado de robôs
A robótica e a inteligência artificial se transformaram em mais um ponto de disputa entre China e Estados Unidos. Os dois países consideram essas áreas estrategicamente importantes e buscam dominar tanto o mercado global de robôs quanto o de modelos de IA utilizados para operá-los.
Os fabricantes americanos costumam oferecer softwares mais fáceis de usar, segundo Harold Soh, pesquisador da Universidade Nacional de Singapura, que conversou com a BBC. Por outro lado, os preços menores das fabricantes chinesas são difíceis de ignorar.
Os cães-robôs da Unitree têm preços a partir de US$ 2,7 mil (R$ 14 mil). O Spot, dispositivo de quatro patas da Boston Dynamics, custa cerca de US$ 70 mil (R$ 365 mil).
Soh ressalta que os produtos não são diretamente comparáveis, já que alguns cães-robôs da Unitree são muito menores. Ainda assim, segundo o pesquisador, a diferença de preço é significativa.
A disputa também chegou ao campo político. Em julho, o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que proibiria novos robôs humanoides e quadrúpedes fabricados na China, citando preocupações com segurança nacional e a proteção da indústria americana.
Pequim rejeitou a alegação e acusou Washington de “politizar” questões comerciais.
Os Estados Unidos também estabeleceram fortes restrições a outras tecnologias chinesas, incluindo modelos de inteligência artificial e carros elétricos.
Mais empresas chinesas podem chegar às bolsas
A Unitree faz parte de um grupo ainda pequeno de fabricantes de robôs humanoides com ações negociadas publicamente.
Sua principal concorrente, a AgiBot, permanece como uma empresa privada. Já a rival de menor porte UBTech tem ações negociadas em Hong Kong.
Esse cenário, porém, pode mudar. Outras seis empresas chinesas de robótica estão se preparando para abrir capital, incluindo Deep Robotics e Leju Robotics.
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Bruno Capozzi é jornalista, mestre em Ciências Sociais e editor executivo do OD.