Resumo:
A notícia aborda o cenário geopolítico internacional e a retomada de ataques ucranianos a refinarias russas, após uma tentativa de trégua mediada pelos EUA. Para o setor de transporte, o único reflexo indireto mencionado é a decisão do governo americano de liberar a venda de diesel russo ao mercado global, medida que analistas apontam como uma tentativa de reduzir os preços dos combustíveis. O texto não traz nenhuma alteração sobre rodovias, pedágios, fretes, documentos de motoristas ou regras da ANTT e fiscalização de trânsito.
Principais tópicos:
Conflito entre Ucrânia e Rússia, mercado internacional de diesel e geopolítica energética.
Em desafio a Trump, Zelensky ordena retomada de ataques a refinarias russas enquanto Musk pede sua renúncia
Bombardeio com mais de 70 projéteis provocou incêndio em instalação em Ryazan, após três dias de trégua em respeito a acordo anunciado pelo presidente dos EUA — nunca cumprido pela Rússia
Por O Globo, com agências internacionais — Kiev e Moscou
Atualizado
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou nesta quinta-feira o fim da pausa nos ataques aéreos contra instalações do setor energético russo, contrariando a trégua negociada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, em um momento em que Washington exerce extrema pressão para que Kiev interrompa suas ofensivas, e o país do Leste Europeu acusa o governo republicano de retirar apoio e tomar "o lado do agressor" — incluindo por meio da ameaça de limitar a cooperação em inteligência. O anúncio ocorre um dia após Zelensky afirmar que as capacidades ucranianas ficaram comprometidas por alterações no sistema de satélites Starlink, de propriedade do bilionário Elon Musk — que, por sua vez, defendeu a renúncia do presidente ucraniano.
- Contexto: Ucrânia acusa EUA de ajudar a Rússia enquanto sofre restrições ao Starlink e ataques que deixam 600 mil sem luz
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— A restrição [de ataques às instalações energéticas russas] acabou. Chega — declarou Zelensky em uma entrevista ao jornal britânico Financial Times, em Londres, publicada na quinta-feira, enquanto as autoridades russas denunciavam um ataque massivo ucraniano contra uma refinaria na região de Ryazan, 180 Km ao sul de Moscou.
O governo regional russo informou que o ataque aconteceu entre a noite de quarta-feira e a manhã desta quinta, e que foi realizado com 69 drones e quatro mísseis de cruzeiro. O Ministério da Defesa russo afirmou que o incêndio na refinaria aconteceu após destroços abatidos pelas defesas antiaéreas do país caírem no local, sem confirmar um impacto direto. Embora Moscou nunca tenha aderido à trégua energética, mantendo bombardeios a instalações ucranianas, o Kremlin afirmou nesta quinta que Kiev ameaça os esforços de paz de Washington.
— [A Ucrânia] continua a realizar ataques contra essas instalações. Ao fazê-lo, entra em grave conflito com os esforços de paz dos Estados Unidos e dos negociadores americanos, que estão empenhando esforços vigorosos para dar início ao processo de paz — afirmou o porta-voz Dmitry Peskov.
O anúncio de Trump sobre o cessar-fogo limitado a infraestruturas energéticas, no domingo, pegou a todos de surpresa, incluindo Zelensky, que inicialmente disse desconhecer os termos. O republicano também anunciou um acerto com o presidente russo, Vladimir Putin, para liberar a venda de diesel ao mercado global — uma medida denunciada por aliados europeus como benéfica à Rússia, enquanto analistas observaram como uma tentativa de Trump de reduzir os preços dos combustíveis nos EUA, atendendo a uma demanda interna antes das eleições de meio de mandato, de 3 de novembro.
Moscou nunca confirmou o acerto sobre a trégua, e continuou com suas ações ofensivas, incluindo no próprio dia do anúncio de Trump. Entre a noite de terça e a madrugada de quarta, bombardeios russos mataram ao menos seis pessoas e deixaram 600 mil sem energia elétrica. Frente à ofensiva, Zelensky acusou os americanos de terem prejudicado as capacidades defensivas do país, mencionando a falta de um alerta prévio sobre a chegada dos projéteis russos e uma instabilidade no sistema Starshield — constelação de satélites Starlink de uso militar, usado pelas Forças Armadas dos EUA e compartilhado com a Ucrânia. Autoridades ucranianas sugeriram que a falha no sistema — posteriormente corrigida — e o ataque russo quase simultâneo não teriam sido coincidência.
Em uma entrevista ao jornalista britânico Piers Morgan, em Londres, na quarta-feira, Zelensky afirmou sentir-se traído em relação ao acordo sobre o diesel e às restrições impostas pelos EUA ao uso militar dos terminais de satélite fornecidos pela SpaceX, de Elon Musk, dizendo ser "uma pena que estejamos perdendo um parceiro forte".
— É doloroso ver o presidente Trump escolher um lado, que não é o nosso — afirmou Zelensky, que em uma publicação nas redes sociais copiou o estilo de escrita do presidente americano para cobrar "HONESTIDADE dos nossos parceiros em relação a esta guerra".
"É importante que todos nos Estados Unidos fiquem não ao lado do agressor, mas ao lado dos nossos esforços para proteger vidas, acabar com esta guerra e garantir a segurança", acrescentou na publicação.
Fontes ucranianas comentaram que a constelação de satélites de comunicação corta o sinal entre um satélite e uma antena se o deslocamento ocorrer a mais de 160 km/h. Isso significa que os recursos militares móveis ucranianos, como seus drones, perdem a conexão se ultrapassarem essa velocidade. Em termos de capacidade ofensiva, o Starlink era "extremamente eficaz" em ataques contra radares, sistemas terra-ar ou a defesa de instalações, disse uma fonte europeia que pediu para não ser identificada. No entanto, as restrições não devem afetar os ataques de longo alcance, especialmente contra refinarias no interior do território russo, onde a rede Starlink não opera.
'Hora de Zelensky ir'
As declarações de Zelensky na quarta-feira causaram incômodo em autoridades em Washington, que negaram uma ação premeditada para prejudicar as defesas ucranianas e retração na cooperação. CEO da SpaceX, empresa responsável pela criação do sistema Starlink, Musk afirmou que o Starshield é de "propriedade do governo dos EUA e está sob seu controle", e que qualquer limitação de uso é decidida pelo Exército americano. Ele também atacou o presidente ucraniano.
"É hora de Zelensky ir embora", escreveu o bilionário na rede social X, compartilhando uma publicação que apontava que o presidente ucraniano só encerraria a guerra com a derrota da Rússia. "E assim o massacre continua".
Negociadores ucranianos afirmaram que mensagens transmitidas por enviados americanos durante uma reunião no fim de semana sinalizaram a possibilidade do fim da cooperação de inteligência com o país. Ao Financial Times, Zelensky disse que a parte americana teria condicionado a continuidade do compartilhamento de inteligência ao fim dos ataques.O Pentágono não respondeu prontamente a um pedido de comentário, mas uma fonte do governo americano ouvida pelo New York Timesnegou que qualquer ameaça neste sentido tenha sido feitaou que tenha havido uma mudança na relação com o país europeu até o momento.
A oposição democrata no Congresso dos EUA, porém, denunciou as restrições de acesso às redes via satélite impostas à Ucrânia. Os democratas da Comissão das Relações Exteriores da Câmara dos Representantes afirmaram em um comunicado conjunto ser "inadmissível restringir o acesso da Ucrânia a Starlink e Starshield em um momento em que mísseis balísticos e drones atacam o país", culpando Trump de tomar uma decisão que "ajuda diretamente Putin a massacrar civis ucranianos".
A presidente da Comissão das Relações Exteriores do Senado, Jeanne Shaheen, acrescentou que "o Pentágono também é obrigado a informar o Congresso caso suspenda ou reduza o compartilhamento de informações com a Ucrânia".
Ruptura
A decisão de retomar os ataques contra o setor energético russo aprofunda uma das rupturas mais graves entre Zelensky e Trump desde o retorno do republicano à Casa Branca, com a promessa de encerrar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia em um único dia — e do notório confronto entre os dois no Salão Oval, ocorrido em fevereiro do ano passado.
Após as tentativas de Trump de pressionar Kiev a aceitar um plano de paz de 28 pontos que favorecia, de forma desproporcional, a Putin, o líder americano mudou o foco para a interrupção dos ataques de Kiev contra as refinarias russas — um dos meios mais eficazes de que a Ucrânia dispõe para fazer a guerra ser sentida no território inimigo e desestabilizar a economia de Moscou.
Por outro lado, Trump não fez qualquer exigência a Putin para que cesse os bombardeios contra a Ucrânia, enquanto tenta, no campo diplomático, reinserir Moscou como um membro legítimo em mesas de negociação como o G20 — de onde o país foi excluído desde a invasão ao país vizinho, em fevereiro de 2022.
— Fingir que a Rússia está retornando como um membro normal do G20 e voltando a sentar-se à mesa... Isso não acontecerá comigo nem com os outros europeus — disse o vice-chanceler alemão, Lars Klingbeil, nesta quinta-feira, antes de uma reunião de cúpula do Conselho Europeu em Bruxelas, que discutirá o apoio à Ucrânia.
Outras lideranças europeias foram diretas ao criticar o presidente americano. O primeiro-ministro holandês, Rob Jetten, classificou o acordo de Trump com Putin sobre o diesel como "ridículo", e disse que o republicano superestima a possibilidade de levar o líder russo a aceitar a paz, "simplesmente tratando-o de forma muito gentil".
— Ninguém me convencerá de que a rendição daqueles que defendem sua própria liberdade pode ser chamada de paz — declarou a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, em um discurso ao Senado italiano na quarta-feira. (Com AFP, Bloomberg e NYT)