IT Forum Mulheres: “Todas podem chegar lá, se tiverem coragem de tomar riscos”, acredita Sandra Vaz, da Red Hat Primeira mulher a presidir Red Hat no Brasil, Sandra Vaz trocou o código pelas vendas e hoje leva a IA e a nuvem híbrida a bancos e ao setor público Há mais de 30 anos, quando quase não se via mulher nos corredores das empresas de tecnologia, Sandra Vaz ingressou como estagiária na Cobra Computadores. Em seis meses estava contratada, escrevendo código como desenvolvedora de aplicações. Hoje ela preside a Red Hat no Brasil, a primeira mulher no posto, e resume o que a trouxe até aqui em duas palavras que repete ao longo da conversa: conhecimento e relações. “Para me destacar, eu usei como ferramenta e chave principal a minha expansão e o meu conhecimento”, ensina. A formação em Análise de Sistemas pelo Mackenzie ganhou, ao longo do caminho, pós-graduações na FGV e na FAAP, em administração, finanças e marketing, e um MBA pela Universidade de Toronto. “Desaprender e aprender sempre fez parte da minha personalidade, porque eu sou uma pessoa muito curiosa”, diz quase que como um mantra. O caminho até a presidência passou por uma virada pouco óbvia para quem começou no código. Da programação, Sandra foi para o suporte técnico e para a pré-venda. Depois, voltou a desenvolver aplicações na Bull. Foi a facilidade de comunicação, testada em palestras e apresentações a clientes, que a levou para alianças e canais já na Oracle, onde ficou mais de 14 anos e chegou à vice-presidência. Na SAP, acumulou vendas, canais e inside sales. A escolha pelo comercial, admite ela, tem seu preço. “A área de vendas te expõe mais: é mais risco, com mais possibilidades, com mais oportunidades. Se você entrega ou não entrega o resultado, impacta o resultado da companhia.” Essa visibilidade, diz, rende indicações de clientes e parceiros, e foram esses convites do mercado que explicam algumas de suas saídas. Para Sandra, o aprendizado vale como recado. “Se souber lidar muito bem com isso, tem a possibilidade de chegar à presidência, como eu cheguei. Todas as mulheres podem chegar lá, se assumirem, se tiverem coragem de tomar riscos.” A presidência, segundo ela, foi planejada, mas sem atalhos. “Foi um plano, sim, e um plano que veio de uma forma natural”, afirma, atribuindo o posto ao conhecimento, à dedicação e a uma rede de contatos que cultiva e que também usa para abrir portas para outras pessoas. Crescer, sem precisar endurecer Sandra chegou à Red Hat em 2021, para comandar parceiros e alianças na América Latina, depois de duas décadas em empresas de software proprietário e de liderança hierárquica. A mudança de cultura, conta, foi música para seus ouvidos. Nas companhias anteriores, ela precisou vestir uma versão mais dura de si mesma. “Em algumas empresas eu tinha que ser mais séria, mais firme, mostrar de uma forma dura, buscar um espaço, mostrar a minha voz. Não foi fácil colocar a minha voz em algumas reuniões; eu tive que aprender a fazer isso”, lembra. Na empresa de código aberto, o movimento foi o inverso. “Não tive que desaprender nada. Tive que deixar a minha essência fluir.” Ela descreve seu papel como o de uma líder que tira obstáculos do caminho do time e filtra os temas mais pesados antes que cheguem às equipes, e liga esse estilo aos números: a área de parceiros cresceu 34% na região sob sua gestão, ritmo que, segundo ela, depois foi ainda maior. Em novembro de 2024, foi nomeada para comandar toda a operação brasileira. A ligação com antigas equipes, aliás, sobrevive às trocas de emprego: há times com quem não trabalha há mais de 20 anos e que seguem próximos, “um apoiando o outro em momentos difíceis da carreira, e até em coisas da vida pessoal”. Para Sandra, quem chega ao topo tem uma tarefa. “Pavimentar o caminho para as outras mulheres, porque nós sabemos quantas pedras encontramos no caminho”, acredita. Ela diz que a Red Hat Brasil aumentou o número de mulheres na empresa e, em especial, em vendas. Mas faz questão de dizer que o movimento não veio de metas. “Não temos cota, temos objetivo. Naturalmente, as mulheres estão emergindo porque elas estão encontrando um espaço importante”, acredita. O setor como um todo avança em ritmo lento. Segundo o Relatório de Diversidade 2025 da Brasscom, as mulheres somam 39,2% da força de trabalho formal em tecnologia da informação e comunicação no Brasil e ocupam 35,2% dos cargos de gerência e diretoria, participação que cresceu 1,2 ponto percentual desde 2019. A executiva vê a mudança também do lado de fora. Lembra de palcos em que, como palestrante ou plateia, só via homens, de clientes e de parceiros, “principalmente, a maioria dos donos são homens”. No Red Hat Summit Connect deste ano, marcado para 10 de novembro em São Paulo, o painel principal será formado por mulheres, “uma coincidência maravilhosa”, nas palavras dela. Entre os clientes, conta, cresce o número de decisoras C-Level. Fora da empresa, ela atua como voluntária em ações do Red Hat Academy em universidades e escolas técnicas, como as Etecs, para mostrar a meninos e meninas “que existe um espaço aguardando por eles na área de tecnologia”. Confiança na linha de frente Nos últimos 12 meses, a Red Hat Brasil cresceu 26%, segundo a executiva, foi a região de maior salto da companhia e fechou o maior contrato das Américas. Os números locais não são divulgados de forma independente, mas o contexto global dimensionam o momento. A Red Hat, controlada pela IBM, faturou US$ 7,3 bilhões em 2025, alta de 12,9%, e a América Latina é a região que mais cresce na empresa há sete anos, com o Brasil respondendo por cerca de metade dos negócios regionais. Sandra atribui o resultado a relações construídas ao longo de anos. “É uma empresa que eu chego e tenho sempre um tapete vermelho me recebendo nos clientes”, indica. Os grandes contratos vieram de bancos e de órgãos de governo, sobretudo em integração com sistemas legados e modernização de aplicações que saem do data center próprio para a nuvem híbrida, onde o cliente “pode negociar melhor com as distintas nuvens”. Automação e virtualização completam a lista de motores. O setor público é peça central dessa conta. “Hoje, boa parte dos nossos resultados e do nosso crescimento vem de entidades do governo”, pontua. Ela descreve a presença da Red Hat ao longo de toda a vida do cidadão, do registro de nascimento à matrícula escolar, do atendimento no SUS ao passaporte na Polícia Federal, do Pix à prova de vida e à aposentadoria. A lista inclui projetos com o Serpro, o Enem e a reforma tributária. IA sem colcha de retalhos Na inteligência artificial (IA), Sandra identifica um desafio que se repete nos clientes. “Todos os clientes, sem exceção, buscam implementar IA dentro de casa. E muitas vezes escolhem diferentes IAs, diferentes modelos, em diferentes departamentos”, sintetiza. O trabalho da Red Hat, explica, tem sido ajudar a costurar uma estratégia única, com dados tratados, padrões comuns, governança e segurança, para trocar projetos fragmentados por uma direção só. O ganho, segundo ela, aparece em duas frentes. A primeira é separar o que funciona do que ficou pelo caminho. As empresas começam a distinguir “os projetos mais bem-sucedidos dos projetos que ficaram largados porque não foram suficientemente impactantes no resultado ou no retorno do investimento”. A segunda é financeira. Com uma estratégia consolidada, diz, a empresa negocia melhor o consumo de tokens e de nuvem. Para chegar às médias empresas, a aposta são os parceiros. Nas grandes contas, a Red Hat busca integradores com acesso ao C-Level, fôlego financeiro e especialistas certificados. No chamado middle market, o papel é de capilaridade. “Senão nós teríamos que ter uma legião de vendedores atendendo todo o território nacional”, afirma a executiva, que passou quase quatro anos à frente justamente desse ecossistema na América Latina. O tema do Summit Connect, “O poder de escolha”, resume o argumento que Sandra leva aos clientes: flexibilidade sem amarras a um único fornecedor. E a cultura que, para ela, fez diferença na própria carreira também orienta a leitura que faz da tecnologia. “Acredito muito nessa colaboração de um mundo muito mais horizontalizado, que eu acredito que é o mundo também da inteligência artificial, que é open, nasceu open”, finaliza. Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias! Notícias relacionadas Ver mais- Notícias Aktie Now abre escritórios em Portugal e México e projeta faturar R$ 18 milhões Redação - Notícias Provedores de nuvem projetam crescimento de 32% no faturamento em 2026 Redação - Notícias Custo de violação de dados no Brasil bate recorde e chega a R$ 7,44 milhões Pamela Sousa - Notícias iFood Ads reduz de dois dias para uma hora produção de relatórios com IA João Marcos