Mesmo após fechar pelo menos 15 escritórios e joint ventures, gigante mantém porta aberta na China graças à demanda de empresas chinesas
Nos últimos cinco anos, a Microsoft já fechou pelo menos 15 escritórios e joint ventures na China, um movimento constante de encolhimento que contrasta com a postura da empresa em décadas anteriores. Ainda assim, segundo apuração da Reuters, a companhia está longe de bater a porta: o avanço acelerado da inteligência artificial e a necessidade de empresas chinesas que atuam globalmente de acessar tecnologia ocidental têm dado à Microsoft motivos concretos para permanecer no país.
A trajetória da empresa por lá remonta ao início dos anos 1990, quando Bill Gates fez a primeira de várias viagens à China e chegou a ser recebido por Jiang Zemin. Em 2010, quando o Google decidiu deixar o mercado chinês por causa de censura e ataques cibernéticos, Gates e o então presidente-executivo da Microsoft, Steve Ballmer, consideraram aquela resposta exagerada e optaram por manter a empresa operando no país, inclusive concordando em seguir exigências de censura que o Google havia recusado.
O cenário, no entanto, mudou de forma significativa. Em 2023, a cúpula da Microsoft chegou a discutir uma saída completa da China, com parte dos executivos avaliando que os riscos geopolíticos superavam os ganhos financeiros. A companhia decidiu ficar, mas o mercado chinês hoje representa apenas 1,5% da receita global da empresa. Entre os fatores que corroeram essa posição está a política de Pequim, em vigor desde 2017, de priorizar softwares nacionais considerados mais seguros e cada vez mais competitivos frente a produtos como Windows e Office. As restrições americanas à exportação de tecnologia avançada também dificultaram o desenvolvimento de nuvem e IA da Microsoft no país.
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O que ainda sustenta a operação chinesa da empresa é, paradoxalmente, um público que já não está mais na China: companhias como a ByteDance, dona do TikTok, dependem de tecnologia ocidental para gerenciar operações internacionais e cumprir exigências estrangeiras de tratamento de dados.
É por meio do Azure, por exemplo, que esses clientes corporativos chineses conseguem acessar modelos de IA ocidentais, incluindo tecnologia da OpenAI, que não opera diretamente dentro do país. Ajudar empresas chinesas a se expandir para fora de casa se tornou, segundo a reportagem, a maior frente de negócios da Microsoft ligada à China, ainda que modesta perto da receita global do grupo.
O ex-chefe da Microsoft na China, Alain Crozier, resumiu à Reuters que a companhia manteve uma relação próxima e estável com as autoridades locais ao longo dos anos, apesar da geopolítica tornar certos dias mais complicados. Do lado da pesquisa e talentos, a Microsoft também vem se reorganizando: fechou um laboratório voltado a IoT e IA em Xangai, chegou a cogitar encerrar seu centro de pesquisa avançada no país e, após as restrições americanas de exportação, abriu novos laboratórios em Vancouver, Cingapura e Tóquio sob a marca Microsoft Research Asia. Em 2024, ofereceu a cerca de mil engenheiros de ponta a chance de se realocar para os Estados Unidos e outros três países ocidentais apenas um terço aceitou, com boa parte dos especialistas mais experientes preferindo permanecer em universidades e empresas de tecnologia chinesas, mais perto de suas famílias.
Apesar da redução de equipes e do redesenho de operações, Crozier fez questão de frisar que a Microsoft não abandonou o trabalho com clientes chineses. O quadro que emerge, portanto, não é de uma saída, mas de uma mudança de modelo: menos presença física e institucional na China, e mais foco em serviços de nuvem e IA voltados a empresas chinesas que operam no mercado internacional.
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Bella Winckler Matrone
Redação
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