Selo IBES propõe certificação para transformar ambientes de trabalho no transporte e na logística
Publicado em: 19 de agosto de 2026
Projeto desenvolvido por gestores de grandes empresas do setor cria metodologia para avaliar infraestrutura, bem-estar e saúde, com foco na valorização dos trabalhadores, aumento da performance e melhoria contínua das organizações
VINÍCIUS DE OLIVEIRA
Gestores de grandes empresas brasileiras dos setores de transporte e logística uniram experiências e conhecimentos para desenvolver uma proposta de certificação voltada à valorização das pessoas e à melhoria dos ambientes de trabalho.
Batizado de Selo IBES — Infraestrutura, Bem-estar e Saúde, o projeto reúne profissionais de diferentes segmentos do setor: Giulia Allevato, da Azul Linhas Aéreas; Maria Aparecida Dutra, da Empresa Viação Ideal, do Grupo Guanabara; Isadora Bauer, da Localiza&Co; Daniella Escocard, da Empresa Viação Águia Branca, do Grupo Águia Branca; Danielly Falqueto, da Vale; e Maria Clara Fernandes, da VLI.
A iniciativa foi desenvolvida no âmbito da Pós-Graduação em Gestão de Negócios da Fundação Dom Cabral e do ITL – Instituto de Transporte e Logística, sob o título “Selo IBES: uma proposta de certificação após o estudo da ambiência em empresas do setor de transporte e logística”.
O objetivo é desenvolver uma certificação específica para empresas de transporte e logística capaz de contribuir simultaneamente para o aumento da performance e do bem-estar dos trabalhadores, por meio de melhorias no ambiente de trabalho.
Da experiência das empresas para uma metodologia comum
A construção do IBES partiu de estudos, pesquisas com colaboradores e lideranças, análises comparativas e avaliação de práticas já adotadas por empresas do setor.
A premissa é que a qualidade do ambiente de trabalho não constitui apenas uma questão relacionada ao conforto ou à satisfação individual. Ela pode produzir efeitos diretos sobre engajamento, produtividade, retenção de talentos, absenteísmo e desempenho das organizações.
Para Maria Aparecida Dutra, Coordenadora Jurídica e Compliance Officer da Empresa Viação Ideal – Grupo Guanabara, um dos diferenciais do projeto foi justamente transformar experiências existentes nas empresas em uma proposta que possa alcançar todo o setor.
“Participar da construção do Selo IBES foi uma oportunidade de transformar experiências de diferentes empresas em uma proposta concreta para o setor. A iniciativa reforça que infraestrutura, bem-estar e saúde não devem ser tratados apenas como benefícios, mas como elementos essenciais para a valorização das pessoas, a qualidade do ambiente de trabalho e a sustentabilidade dos resultados.”
Maria Aparecida destaca que a experiência da própria Viação Ideal também contribuiu para a elaboração da proposta e chama a atenção para a atualidade do tema diante das mudanças na gestão dos riscos ocupacionais.
“Foi ainda mais significativo contribuir com esse projeto porque pude levar práticas que já vivenciamos e desenvolvemos diariamente na Viação Ideal. Essa proposta também se mostra atual e alinhada às diretrizes da NR-1, especialmente quanto à importância de identificar e prevenir os riscos psicossociais relacionados ao trabalho.”
Três dimensões para avaliar o ambiente de trabalho
A metodologia proposta estabelece uma avaliação estruturada em torno das três dimensões que dão nome ao selo: Infraestrutura, Bem-estar e Saúde.
O modelo prevê a realização de um diagnóstico da organização, avaliação dos critérios relacionados às três dimensões, identificação de pontos de melhoria e elaboração de planos de ação. Posteriormente, a proposta contempla validação externa e o reconhecimento das organizações que alcançarem os parâmetros estabelecidos.
A intenção, portanto, não é criar apenas mais uma certificação, mas utilizar o selo como instrumento para induzir um processo permanente de aperfeiçoamento dos ambientes profissionais.
Para Isadora Oliveira, Gerente Distrital da Localiza&Co, o desenvolvimento do projeto permitiu transformar problemas concretos observados nas empresas em uma metodologia aplicável ao setor.
“Participar da construção do IBES foi uma experiência muito significativa, principalmente por transformar uma necessidade real das empresas de transporte e mobilidade em uma iniciativa concreta voltada para as pessoas. O projeto nasceu da percepção de que cuidar do colaborador vai muito além de cumprir requisitos legais: é preciso garantir ambientes que ofereçam condições mínimas de estrutura, saúde, segurança, bem-estar e segurança psicológica.”
Segundo Isadora, a discussão ganhou ainda maior relevância diante dos desafios relacionados à NR-1 e à necessidade de incorporar a prevenção dos riscos psicossociais à gestão das organizações.
“Ao longo do projeto, tivemos a oportunidade de aprofundar essa discussão, considerando especialmente os desafios trazidos pela NR-1 e a importância de criar parâmetros que possam ser aplicados à realidade do nosso setor. O IBES representa, para mim, justamente essa união entre responsabilidade, cuidado e evolução: um instrumento capaz de reconhecer empresas que estão comprometidas em construir ambientes de trabalho mais saudáveis e seguros.”
Ela ressalta ainda o potencial de o trabalho acadêmico ultrapassar os limites da pós-graduação e gerar efeitos concretos nas empresas.
“Ter contribuído para esse projeto durante a pós-graduação foi uma oportunidade de transformar uma inquietação do dia a dia em conhecimento, metodologia e, principalmente, em uma proposta que pode gerar impacto positivo para muitas pessoas no setor de mobilidade.”
Certificação como estímulo à transformação
O Selo IBES pretende estabelecer referências que permitam às empresas compreender melhor a qualidade de seus ambientes de trabalho, reconhecer boas práticas e, principalmente, identificar aspectos que precisam evoluir.
Nesse sentido, o reconhecimento seria consequência de um processo mais amplo. Mais do que conceder um selo às empresas que atendam aos critérios, a proposta busca estimular uma transformação contínua da cultura organizacional, colocando o cuidado com as pessoas no centro das decisões.
Os idealizadores esperam que, em uma etapa futura, a iniciativa possa contar com apoio e validação institucional do Sest Senat, o que poderia ampliar tanto o alcance como a credibilidade da certificação junto às empresas de transporte e logística.
A proposta nasce de uma convicção compartilhada pelo grupo: cuidar do ambiente de trabalho significa cuidar das pessoas — e cuidar das pessoas também é uma forma de cuidar da sustentabilidade, da produtividade e dos resultados do negócio.
Vinícius de Oliveira, para o Diário do Transporte