O antídoto está em garantir o presente e desenhar o futuro, sem adivinhar o que vem, mas acompanhando o que já está acontecendo
Por Afranio Lamy Spolador Junior
Enquanto escrevo este artigo, estou hospedado em uma gruta em Matera. Localizadas na Civita, a área mais ancestral dos Sassi, essas cavidades escavadas na calcarenita registram a presença humana contínua desde o Paleolítico. Muitas das cavernas utilizadas hoje como suítes foram escavadas e moldadas há cerca de 9.000 anos (Neolítico), servindo inicialmente como abrigos e, com o tempo, evoluindo para habitações e fortalezas camponesas.
Ao olhar para trás, percebo o quanto a tecnologia sempre fez parte da nossa história e da nossa capacidade de transformar e vejo algo que continua atual até hoje: ferramentas, habilidades e atitude mental. Na construção dos Sassi se vê tudo isso… de forma rudimentar, mas inteligente. Grutas construídas com ferramentas, habilidade e inteligência para captar a luz do sol, manter a temperatura e garantir água fresca.
Certamente, as civilizações que passaram por aqui jamais imaginaram o que temos hoje como tecnologia e como o mundo se transformaria. Até mesmo nos Sassi atuais podemos contar com energia elétrica, Wi-Fi, água potável e sistema de esgoto.
E este lugar me faz pensar sobre a nossa soberba em querer adivinhar o futuro. Estamos vivendo uma das maiores transformações da história. Da eletricidade à Internet. Dos servidores à nuvem. Dos algoritmos simples à inteligência artificial. Um mundo de oportunidades infinitas onde prever parece estar ao nosso alcance. O fato é que as técnicas e ferramentas de previsão costumam olhar para trás, encontrar padrões para projetar tendências. O problema? Estas tendências nascem de padrões que já existem. E o futuro? Insiste em abrir curvas que nenhum padrão antecipa.
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Talvez o nosso melhor exercício seja o Foresight – o processo disciplinado de explorar futuros alternativos para moldar um futuro preferível, em vez de tentar prever um único resultado. E, a partir daí, buscarmos desenhar e construir este futuro.
Mas a armadilha está ali, bem na nossa frente. Ao buscarmos este futuro mais que incerto e imprevisível, acabamos por esquecer do presente. E geralmente é ele quem nos sustenta. Por outro lado, se ficarmos presos na segurança do presente, seremos engolidos pelo futuro. O desafio é acompanhar o presente, escolher e construir um novo futuro. Não se trata de prever o que vem por aí, mas de desenvolver a capacidade organizacional para responder rápido ao que quer que venha. E, sobretudo, poder tomar decisões e escolher caminhos antes de se tornar vítima dos caminhos que vierem. Agilidade, adaptabilidade, pensamento crítico e propósito são fundamentais.
No mundo da IA, quem melhor conseguir usar a capacidade humana estará à frente. Foi o que fizeram os que escavaram estas grutas há nove mil anos: garantiram o presente com ferramentas, habilidade e atitude. Desenharam um futuro que ainda me abriga. O antídoto para o imprevisível está aqui, nestas paredes: garantir o presente e desenhar o futuro. Não adivinhar o que vem, mas acompanhar, de perto, o que já está acontecendo.
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Luiza Sassi
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