A partir de setembro, perfis de artistas fictícios criados por IA ganham selo e ficam fora das recomendações automáticas da plataforma
A Spotify anunciou que passará a identificar publicamente artistas cuja identidade é gerada por inteligência artificial (IA), por meio de um novo selo chamado “AI Persona”. Segundo apurou a Reuters, a partir de meados de setembro, perfis de artistas cuja imagem e nome representam identidades fotorrealistas criadas por IA, em vez de pessoas reais, passarão a exibir a marcação em destaque na plataforma.
De acordo com a publicação, o selo poderá ser aplicado de duas formas. Primeiro por autodeclaração do próprio artista ou projeto, que opta por informar à Spotify que se trata de uma “AI Persona”. Segundo por decisão da própria plataforma, que revisará perfis e aplicará a marcação quando identificar, com base em critérios internos, que a identidade divulgada é artificial. Em ambos os casos, o usuário poderá tocar no selo para verificar se a informação partiu do próprio artista ou foi atribuída pela Spotify.
A medida mais significativa do anúncio, porém, está na forma como esse conteúdo vai circular na plataforma. Segundo a companhia, faixas de perfis marcados como “AI Persona” deixarão de aparecer em playlists editoriais e recomendações algorítmicas, incluindo o Discover Weekly e sugestões de rádio automática. A única forma de um ouvinte ser exposto a essas músicas passará a ser buscar diretamente pelo artista ou segui-lo, o que deve reduzir de forma significativa o alcance orgânico desse tipo de conteúdo.
Os selos aparecerão em múltiplos pontos da experiência do usuário: no banner e na seção “Sobre” do perfil do artista, nos resultados de busca e nas linhas de faixas dentro de playlists.
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A decisão da Spotify chega depois de meses de pressão da indústria musical por mais transparência sobre conteúdo sintético na plataforma. O caso mais emblemático foi o de The Velvet Sundown, projeto que surgiu em junho de 2025 como uma banda de folk rock convencional, acumulou milhões de execuções e só semanas depois confirmou publicamente ser um “projeto musical sintético guiado por direção criativa humana”, com faixas compostas com apoio de ferramentas de IA como o Suno. A revelação provocou reação imediata de artistas e gravadoras, que acusam empresas de inteligência artificial de treinar seus modelos com obras protegidas por direitos autorais para depois inundar as plataformas de streaming com músicas sintéticas, corroendo a remuneração de músicos humanos.
Nomes de peso da indústria, como Elton John e Dua Lipa, têm defendido publicamente regulamentação mais rígida sobre o uso de inteligência artificial na música. Até aqui, a Spotify vinha sendo criticada por manter silêncio sobre o tema, em contraste com concorrentes como a Deezer, que já adotava sinalização proativa de faixas geradas por IA antes do anúncio desta semana.
A mudança acontece em meio a um esforço mais amplo da indústria fonográfica para padronizar a sinalização de conteúdo sintético nas plataformas de streaming. Em julho, a RIAA, a IFPI, a A2IM e outras entidades do setor propuseram a criação de duas etiquetas específicas para faixas musicais: “gerada por IA”, para músicas construídas majoritariamente por inteligência artificial, e “assistida por IA”, para faixas em que ferramentas de IA são usadas em partes do processo, mas a condução criativa permanece humana.
Um grupo que reúne as três grandes gravadoras e selos independentes como Believe, BMG, Concord e HYBE também propôs regras para impedir que gravações feitas por IA disputem posições em paradas oficiais, a menos que sejam produzidas de forma legal, “substancialmente humanas” e livres de manipulação artificial de execuções. O selo “AI Persona” da Spotify se soma a essas iniciativas, mas atua em uma camada diferente: em vez de marcar músicas individuais, identifica a própria identidade do artista por trás do perfil.
A Reuters apurou que a iniciativa da Spotify não proíbe a existência de artistas gerados por IA na plataforma, tampouco impede que eles sejam ouvidos. O modelo escolhido pela empresa aposta na transparência e na limitação do alcance algorítmico como forma de equilibrar a demanda por regulação com a resistência a banir esse tipo de conteúdo.
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Redação
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