Pix, Open Finance e inteligência financeira ampliam a capacidade dos bancos de antecipar necessidades e apoiar decisões no segmento PJ
Por João Betenheuzer
A quantidade e a qualidade dos produtos seguem relevantes na escolha do banco principal de uma empresa, mas vêm dividindo espaço com outros fatores. Essa tomada de decisão vem sendo baseada cada vez mais no relacionamento e na habilidade da instituição em resolver dores reais da operação: antecipar uma necessidade de caixa, organizar recebíveis, simplificar pagamentos, apoiar decisões de crédito e reduzir a incerteza sobre as próximas semanas. A facilidade de acesso ao crédito, por exemplo, é um dos principais requisitos para PMEs ao elegerem seus bancos.
Essa mudança começa a redefinir o relacionamento bancário no segmento PJ. A combinação entre Pix, Open Finance e inteligência financeira cria uma nova base de competição, em que conta, cartão, cobrança e crédito seguem relevantes, mas ganham mais valor quando agregados a soluções e serviços que ajudam a gerar previsibilidade e conveniência na rotina das empresas.
A discussão tem ainda mais relevância para pequenas e médias empresas. Esse público vive uma realidade financeira dinâmica, muitas vezes fragmentada entre diferentes bancos, sistemas, planilhas e processos manuais. Pagamentos estão em um lugar, recebimentos em outro, crédito em uma instituição e conciliação em ferramentas paralelas. Quando essas informações não se conectam, a gestão se torna reativa: a empresa percebe o problema quando ele já chegou ao caixa.
O avanço do Pix muda parte dessa lógica porque torna o fluxo financeiro mais imediato e visível. Segundo o Banco Central, o Pix foi responsável por 50,9% das transações de pagamento no país no primeiro semestre de 2025, somando 36,9 bilhões de operações. No acumulado do ano, atingiu quase 80 bilhões de transações e movimentou R$ 35,4 trilhões. No universo PJ, cada transação pode carregar sinais sobre comportamento, recorrência, sazonalidade, capacidade de pagamento e momento operacional.
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O Open Finance amplia esse potencial ao permitir uma leitura mais integrada e, consequentemente, personalizada, da vida financeira do cliente. Em janeiro de 2026, o Brasil chegou a 128 milhões de consentimentos ativos, segundo o relatório “Estado do Open Finance – Brasil & Mundo”, da Sensedia e Let’s Money, além de mais de 4,4 bilhões de comunicações semanais entre instituições e aplicações. No primeiro trimestre de 2026, o dashboard oficial já apontava mais de 160 milhões de consentimentos ativos.
Esse avanço aumenta a responsabilidade das instituições financeiras sobre o uso dessas informações. Uma empresa pode ter aumento de movimentação por crescimento real, antecipação de recebíveis ou concentração temporária de entradas. Também pode
buscar crédito para expandir ou apenas para cobrir um descasamento de caixa. Com um volume cada vez maior de dados disponíveis, o diferencial passa a estar na capacidade de interpretar sinais dispersos e transformá-los em decisões mais úteis para o negócio.
Essa mudança também altera a lógica do crédito. Em vez de olhar apenas para informações estáticas ou retrospectivas, instituições financeiras podem construir leituras mais próximas da realidade da empresa. O fluxo transacional, quando analisado com contexto, ajuda a formar um perfil mais detalhado, incluindo capacidade de pagamento, estabilidade de receita, concentração de clientes, pressão de despesas e necessidade de capital de giro, colaborando com a criação de uma linha de crédito mais aderente às necessidades específicas de cada um.
Para esse público, conveniência significa reduzir o esforço necessário para tomar decisões financeiras. Uma solução realmente útil ajuda a responder perguntas objetivas: posso assumir esse compromisso? Preciso antecipar recebíveis? Este é o momento certo para tomar crédito? Há risco de falta de caixa nas próximas semanas?
A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025 reforça que os bancos brasileiros seguem ampliando seus investimentos em tecnologia, com orçamento estimado em R$ 47,8 bilhões no ano. Para o segmento PJ, o desafio é direcionar esse investimento para problemas reais da jornada empresarial, tornando a operação mais clara, previsível e simples para o cliente.
A fragilidade financeira das PMEs muitas vezes não nasce da falta de produto bancário, mas da falta de visibilidade. Um levantamento do Sebrae mostrou que 61% dos empreendedores brasileiros ainda fazem pagamentos da empresa com a conta pessoal. O dado revela uma dificuldade estrutural de organização financeira e reforça como a leitura correta das movimentações pode ser determinante para melhorar gestão, crédito e relacionamento bancário.
Nesse cenário, o banco principal de uma empresa não será necessariamente aquele com o maior portfólio, mas aquele que conseguir conectar conta, cobrança, crédito e meios de pagamento a uma leitura mais clara da operação. A próxima fronteira da competição no segmento PJ passa por ajudar a empresa a enxergar antes, decidir melhor e operar com mais previsibilidade.
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Claudio Martinelli