A evolução das ferramentas de inteligência artificial está democratizando a criação de tecnologia, permitindo que usuários comuns programem softwares personalizados por meio de comandos em linguagem natural. A tendência, impulsionada por modelos como Claude Code, Gemini Pro e ChatGPT Codex, aponta para uma revolução do software pessoal e caseiro, onde qualquer pessoa pode desenvolver ferramentas customizadas para resolver necessidades cotidianas sem exigir conhecimentos avançados de engenharia de código.
Principais tópicos:
* Tecnologia/Tendência: Programação por linguagem natural ("vibe coding") e revolução do software pessoal.
* Empresas/Produtos: Anthropic (Claude Code), Google (Gemini Pro) e OpenAI (ChatGPT Codex).
A revolução do software caseiro
Resumo
É bastante provável que daqui a pouco tempo você programe seus próprios aplicativos, programas ou sites. Isso se já não o fez. Seja para criar um pequeno negócio, divulgar algo de que goste ou desenvolver alguma ferramenta que te ajude a resolver ou simplificar algo na rotina.
O assunto não é novo. "Vibe coding", termo que define a programação através de comandos de linguagem natural foi eleita a palavra do ano de 2025 pelo dicionário Collins e tema de matéria aqui no UOL na ocasião.
Mas, com as devidas ressalvas para coisas que já nascem com seu próprio nome bacaninha, gosto dessa possibilidade porque democratiza um conhecimento que por muito tempo ficou restrito a um pequeno grupo e demandava anos de estudo para ser assimilado. E sempre que isso acontece e podemos reduzir a altura das cercas que separam o cidadão comum de algo antes exclusivo, o resultado geral é positivo. Tem um efeito de utilidade no curto prazo e tem um efeito de inclusão e acesso logo em seguida.
Em um artigo publicado na The Verge há alguns meses, David Pierce escreveu sobre o que ele chamou de uma revolução do software pessoal. Recomendo a leitura toda, mas a abertura (em tradução minha, sorry) é a seguinte: "A tirania do software está quase no fim. Desde que os primeiros programadores escreveram os primeiros programas de computador, nós, os usuários desse software, fomos forçados a viver nos mundos que esses programas criavam. As funcionalidades são as funcionalidades. O design é o design. Quer outra coisa ou algo melhor? Aprenda a programar, eu acho". Mas, ele completa, a chegada de versões mais avançadas de ferramentas de IA mudaram esse cenário, permitindo que usuários comuns (a gente aqui) possam criar e programar seus softwares pessoais do mesmo jeito que costumamos fazer planilhas ou editar textos.
O seu programinha caseiro pode ser um pequeno sistema de organização de agenda de compromissos somado à logística da casa, juntando a planilha de orçamentos. Quem sabe, uma integração das listas de compras no supermercado nos mesmos dias em que você leva as crianças para a escola. Ou, uma calculadora de calorias e atividades físicas que não esteja enviando seus dados para um serviço de marketing de empresas farmacêuticas. E por aí vai.
Eu sei, já tem algo "tipo assim" no seu celular e disponível na internet, mas não propriamente um "tipo assim" do jeito exato que você precisa. E para uma variedade de pequenas atividades, em vez de buscar um novo app para te ajudar, você vai desenvolver o seu próprio a partir de comandos de voz ou texto, tal como já faz para garantir que seu marido entenda di-rei-ti-nho o que e como ele deve organizar aquelas benditas caixas largadas na garagem.
Não me refiro, evidentemente, às complexas estruturas de desenvolvimento e código que seguirão demandando engenheiros, cientistas, arquitetos e designers para serem criadas e mantidas (além de sistemas de infraestrutura e segurança). Mas, para o desafio rotineiro de lidar com as máquinas, aí sim, podemos afirmar que os obstáculos para domesticar a programação estão cada vez menores.
As versões mais recentes dos modelos de IA já ajudam nisso. O recurso de programação ainda é restrito aos modelos mais novos e geralmente pagos, mas a velocidade com que isso avança é surpreendente. Dos que testei, Claude Code (se puder, leia essa história sobre o lançamento do Code), Gemini Pro e ChatGPT Codex têm essas funções de programação. Entre os modelos chineses, confesso que ainda não desci fundo o bastante.
No mês passado, redesenhei, desenvolvi e publiquei um site inteiro em menos de um dia. Para mexer no design das páginas, anexei uma captura de tela que tinha em mãos e pedi ao Claude: "use essas cores e adote essa fonte". Todos os ajustes posteriores na programação foram com comandos de texto na caixa de conversa do próprio chat. Na semana passada, só como teste, usei o Gemini para criar uma pequena calculadora que me ajudasse a projetar a velocidade e o ritmo nos meus treinos de corrida usando apenas comandos de voz. Minhas noções de código de programação são semelhantes às que tenho de sânscrito.
Se a barreira do conhecimento está sendo superada, a do preço e do acesso ainda não. Os modelos de IA mais conhecidos custam caro (cerca de R$ 100) e você e eu sabemos que vivemos em um país com limitação de banda, infraestrutura e dispositivos. Nesse contexto, se a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China servir para baratear os custos de acesso, o aumento da oferta pode nos beneficiar. E porque isso tudo me parece um tipo de processo incontornável, ainda que a passos lentos, acredito que avançaremos.
É uma mudança bem-vinda, um dos usos aplicáveis do advento da inteligência artificial. Não apenas pela utilidade geral, mas também pela desmistificação da tecnologia. Porque, em geral, o desconhecimento sobre o funcionamento de algo, além de um obstáculo à sua utilização, é também o que torna os leigos mais suscetíveis a engodos e golpes de toda sorte.
Alguns luditas provavelmente vão arredar o pé, bradar "está repreendido!" e prometer que jamais tocarão suas mãos consagradas nesses códigos impuros. Mas, veja bem, não é por aí que a coisa avança. Aliás, até para que se possa desenvolver uma visão crítica a respeito de algo, é importante superar o negacionismo e analisar racionalmente seus impactos.
Em breve, programar sistemas simples demandará o mesmo tipo de esforço que algumas noções elementares de culinária, mecânica básica ou eletrônica. É claro que ainda vamos a um restaurante comer um prato mais sofisticado, levamos nossos carros na oficina quando ele deixa de funcionar e contratamos um eletricista para instalar a rede elétrica do apartamento. Mas, cozinhar um ovo, checar os motores e manejar uma troca de tomadas e lâmpadas é algo que já somos bem capazes de resolver sozinhos (só não conte isso para minha esposa, por favor). Simplificar o processo de programação torna mundano o que até hoje parecia mistério.
Para além das trivialidades cotidianas, tenho o desejo de que esse fluxo nos conduza a uma rotina mais descomplicada, com a tecnologia finalmente funcionando como serviço e não como fim. Todos temos ideias de como algumas coisas poderiam funcionar melhor, só não tínhamos domínio das ferramentas para construir o que precisamos.
Tenho também um fiozinho de esperança (o otimismo é um mal incorrigível) de que esse efeito democrático também promova o desenvolvimento e amplie a oferta de soluções e serviços mais simples e acessíveis para idosos, crianças, pessoas com deficiência e tanta gente para quem as soluções tecnológicas atualmente não são feitas para servir.
(Se quiser continuar a conversa, me escreva. Estou no Instagram, no Substack e no LinkedIn).
[refs] Essa semana,
eu li sobre emojis finalmente sendo levados a sério , mas confesso que sou da geração que prefere emoticons ¯\_(?)_/¯. Li esse conto do Ricardo Terto na Piauí, o Nick Hornby falando sobre futebol e Rui Tavares comentando sobre o fim da civilização poética. Terminei de ler "O Rio da Consciência", último livro do Oliver Sacks e também "Na Ponta da Língua" do Caetano Galindo e acho que você deveria fechar essa aba agora e começar a ler (falei mais sobre leituras na minha outra coluna sobre livros aqui no UOL).
Ainda sobre livros e ainda aqui no quintal do UOL, assista ou escute essa conversa do Murilo Garavello com o Julián Fuks. E emendando no tema podcast, tem esse episódio sobre perfeccionismo no Escafandro que vale sua hora. E se a coisa ficou cabeça demais, perca seu tempo e suas economias com a nova coleção de câmeras Polaroid inspiradas em Pokémon.
Ainda sobre obsessões, se você tem um interesse obsessivo (se for quase obsessivo serve também) por entender o que se passa na indústria de tecnologia de forma geral e quer um bom apanhado diário de notícias, leia o Techmeme. Tem um feed enorme e uma newsletter muito bem organizada e com jeitão de web 2.0 que é um afago para saudosistas. Até!