Com alta adoção pessoal e baixo legado estrutural, o mercado latino-americano tem o cenário perfeito para liderar a autonomia operacional da IA
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Por Paola Benchimol
O Brasil ocupa a segunda posição global no consumo diário de Inteligência Artificial Generativa, com 51,6% da população ativa utilizando a tecnologia em sua rotina, segundo pesquisa da Cisco em parceria com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No entanto, quando o foco se volta para a adoção corporativa, o país conta com apenas 13% das organizações com estratégias estruturadas de IA, segundo pesquisa da TIC Empresas.
Em uma leitura superficial, esse distanciamento pode apontar um atraso. Na prática, ele desenha o cenário ideal para um salto tecnológico com adoção de IA. A América Latina possui um histórico consistente de ignorar etapas intermediárias, como o salto dos bancos e da telefonia diretamente para os bancos digitais, pagamentos instantâneos e canais de comunicação como WhatsApp. A ausência de décadas de sistemas legados, uma realidade que hoje atrasa companhias europeias e norte-americanas, nos permite adotar camadas modernas de arquitetura com muito mais velocidade e menos fricção.
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A urgência por esse salto nasce de um descompasso financeiro no mercado corporativo. Embora 78% das organizações no mundo já utilizam Inteligência Artificial (McKinsey), dados do Boston Consulting Group (BCG) apontam que 60% não conseguem extrair nenhum retorno de seus investimentos e apenas 5% atingem a maturidade na geração de valor. O dinheiro investido se dissipa porque a tecnologia foi acoplada a sistemas isolados, como os CRMs e ERPs tradicionais.O trabalho corporativo, no entanto, não acontece de forma isolada. O processamento de uma compra, a aprovação de um crédito ou a contratação de um funcionário são processos que habitam um limbo corporativo: eles começam em um sistema, passam por trocas de e-mails, exigem planilhas paralelas e terminam em outra plataforma.
O mercado começou a perceber que o retorno sobre o investimento não está em conectar a inteligência a um sistema específico, mas em em conhecer a intenção do cliente, construir o processo e fazê-la orquestrar como um todo de forma segura e inteligente. As projeções do BCG indicam que os agentes de IA saltarão de 17% do valor total gerado pela tecnologia em 2025 para 29% em 2028, marcando a transição da simples leitura do dado para o processo executável. Na orquestração agêntica, a IA deixa de atuar de forma passiva, como um leitor de contratos, para assumir a execução do fluxo operacional. Se um gestor dá a ordem para aprovar o pedido de um fornecedor, a tecnologia respeita as alçadas, aciona os responsáveis corretos e registra o histórico da operação. Essa orquestração atua como uma camada acima do stack tecnológico da empresa.
A sustentação dessa autonomia operacional depende de um modelo de governança nativa, muito distante dos tradicionais manuais de compliance. Em mercados regulados, como saúde e finanças, a segurança exige que as regras de negócio sejam a própria fundação do sistema. Em uma arquitetura orquestrada, a tecnologia não tem caminhos para pular etapas de aprovação ou movimentar processos sem cumprir as condições preestabelecidas. As trilhas de auditoria são geradas de forma nativa e ininterrupta.
Dominar essa arquitetura tem um prazo apertado. A América Latina possui uma janela de 12 a 18 meses para consolidar seus sistemas antes que as plataformas globais ajustem seus produtos para a nossa realidade. Soluções desenvolvidas no exterior frequentemente esbarram na complexidade regulatória regional, enfrentando dificuldades para operar em conformidade com as minúcias da LGPD, as regras do eSocial ou a engenharia tributária local. Construir processos governados que entendam essas variáveis de forma nativa garante uma vantagem competitiva inegável.
O mercado esgotou a paciência com ferramentas de IA que impressionam visualmente, mas não entregam impacto no balanço financeiro. A América Latina tem o terreno, a cultura de adaptação e a oportunidade exata para liderar essa transição. Sair do limbo entre sistemas e estruturar o trabalho por meio da orquestração agêntica governada é o caminho direto para transformar um distanciamento estatístico em produtividade real.
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Bruna Rocha
Redação
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