Gestos em fotos podem ser confundidos com símbolos de facções; entenda risco Especialistas explicam quando sinais comuns em fotos podem ser confundidos com símbolos de facções criminosas, e os riscos legais e de segurança envolvidos Um sinal de paz, um "joia" ou até o clássico gesto de rock levantado numa foto de show, em qualquer outro momento, passariam despercebidos. Mas casos recentes registrados em Estados como Bahia, Ceará e Mato Grosso mostraram que uma foto aparentemente inofensiva pode ser lida como sinal de pertencimento a uma facção criminosa, com consequências que vão de constrangimento até risco real à vida de quem posou para a câmera. A seguir, entenda por que isso acontece, como esses símbolos circulam nas redes sociais e o que a legislação brasileira diz sobre o assunto. Para explicar a questão, o TechTudo conversou com o advogado criminalista Jeisson Barreto e o especialista em redes sociais Eduardo de Barros. 🔎Usa redes sociais? Entenda 5 riscos de expor demais a sua rotina 📲 Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews Índice - Por que uma foto inocente pode causar problemas? - Como grupos criminosos usam símbolos nas redes sociais? - O algoritmo ajuda a espalhar esses conteúdos e perder o contexto original das fotos? - Quando uma publicação pode ter consequências legais? - Como se proteger de interpretações erradas nas redes sociais? Por que uma foto inocente pode causar problemas? Uma foto, por si só, pode parecer inofensiva, mas o contexto em que ela é publicada pode mudar completamente a forma como é interpretada. Símbolos, gestos, objetos ou referências presentes na imagem podem ser associados a determinados grupos, ideias ou práticas, especialmente quando a publicação é acompanhada de legendas, hashtags ou outros elementos que reforçam esse significado. Por isso, uma imagem aparentemente inocente pode gerar interpretações equivocadas ou até consequências jurídicas, dependendo da situação e da intenção de quem a publicou. No entanto, o advogado criminalista Jeisson Barreto, especialista em criminologia e psicopatologia forense, acha importante desfazer uma confusão: gesto, isoladamente, não é crime. "O Direito Penal olha para conduta e para intenção, não para aparência. O que muda o jogo é quando esse gesto deixa de ser um detalhe solto e começa a conversar com o resto da cena: uma legenda, quem está do lado, uma arma em cima da mesa, um perfil inteiro apontando na mesma direção", explica. O problema é que essa distinção jurídica nem sempre é levada em conta fora dos tribunais. Reportagens recentes mostraram que gestos com dois ou três dedos levantados passaram a ser associados publicamente às duas maiores facções criminosas do país, em referência à quantidade de letras de suas siglas, uma leitura que circula tanto entre criminosos quanto entre policiais e pesquisadores de segurança pública. "Aqui essa leitura equivocada tem endereço: um sinal mal interpretado por uma facção rival vira sentença antes de qualquer processo. A gente viu isso em casos recentes na Bahia, no Ceará e no Mato Grosso, com vítimas que não deviam nada a ninguém", alerta Barreto. A fala de Barreto se refere a casos recentes em que gestos feitos em fotos foram apontados como possíveis motivos para episódios de violência. Entre eles estão o assassinato do adolescente Henrique Marques de Jesus, em Jericoacoara (CE), e o caso das irmãs Rayane e Rithiele Alves Porto, em Porto Esperidião (MT). Na Bahia, também houve registros de vítimas abordadas por supostamente fazerem gestos interpretados como sinais de facções. Em alguns desses episódios, porém, a relação entre a fotografia e o crime não foi confirmada oficialmente pelas autoridades. Como grupos criminosos usam símbolos nas redes sociais? Eduardo de Barros, especialista em redes sociais e marketing digital e CEO da IDK Brasil, explica que o fenômeno não é exclusivo do crime organizado: é assim que comunidades online em geral funcionam. "Grupos criminosos podem se apropriar de símbolos, gestos, códigos visuais, números ou expressões para se identificar ou se comunicar entre si. O ponto importante é que esses elementos não possuem um significado fixo. Muitas vezes, um gesto comum pode ter interpretações completamente diferentes dependendo do contexto, da legenda, do perfil que publica e do público para o qual a mensagem é direcionada", afirma. Esses códigos, segundo reportagens sobre o tema, têm raízes no ambiente prisional, onde a comunicação discreta sempre foi necessária, e migraram para as redes sociais como forma de reforçar identidade e controle territorial entre grupos rivais. O problema é que, ao saltar do ambiente fechado das facções para o feed público de qualquer usuário, esses sinais deixam de ser exclusivos de quem realmente pertence a um grupo, e passam a ser lidos, por engano, em fotos de pessoas completamente alheias a esse universo. O algoritmo ajuda a espalhar esses conteúdos e perder o contexto original das fotos? "Com certeza" foi a resposta dada quando o TechTudo perguntou ao especialista em redes sociais se o algoritmo ajuda a espalhar esses conteúdos. De acordo com Barros, os algoritmos priorizam conteúdos que geram engajamento, independentemente de quem os visualiza conhecer o contexto original da publicação. "Uma imagem pode ser compartilhada, recortada ou repostada diversas vezes até perder completamente sua origem. Quando isso acontece, as pessoas passam a interpretar apenas o que veem naquele momento, sem acesso às circunstâncias em que a foto foi feita", explica o especialista. Isso não significa que as plataformas ignorem o problema. Segundo Barros, as redes sociais investem em tecnologias de moderação que combinam inteligência artificial, análise de padrões e revisão humana para tentar identificar conteúdos associados a atividades ilícitas, mas o desafio aumenta quando o elemento analisado é um gesto ou símbolo, já que a mesma imagem pode aparecer em contextos totalmente legítimos. "Por isso, normalmente a análise considera um conjunto de fatores, e não apenas um gesto isolado", afirma. Quando a plataforma identifica indícios de violação das políticas de uso, pode limitar o alcance da publicação, remover o conteúdo, suspender contas ou, em casos mais graves, colaborar com autoridades competentes. Quando uma publicação pode ter consequências legais? Do ponto de vista penal, Jeisson Barreto explica que o elemento central é o dolo, a vontade consciente de representar algo. "Quem imita o gesto do rock num show ou faz sinal de paz numa foto de viagem, por exemplo, simplesmente não tem essa vontade de 'representar' coisa nenhuma, então falta o elemento que a lei exige." Provar a intenção contrária, segundo ele, é difícil, e tem que ser mesmo, já que uma imagem congelada não é capaz de, sozinha, comprovar adesão a uma facção. Isso não impede, porém, que um gesto chame a atenção de investigações: "ser investigado tem uma porta de entrada baixa (...) mas investigar não é acusar e está a anos-luz de condenar", pondera o advogado. Nos casos em que publicações já foram usadas como prova, elas costumam aparecer em contextos como tráfico com ostentação (fotos com dinheiro, arma ou droga), formação de associação criminosa ou como o próprio corpo de um crime, como ameaça. Ainda assim, Barreto reforça que esse tipo de material vale como corroboração dentro de um conjunto de provas, nunca isoladamente, e que o acesso a dados de plataformas exige ordem judicial, conforme o Marco Civil da Internet. O que mais pesa nesses casos é o conjunto: histórico da pessoa, vínculos reais com investigados, região, teor de legendas e gírias, repetição de padrão em várias postagens e presença de arma, droga ou dinheiro nas imagens. Como se proteger de interpretações erradas nas redes sociais? Os dois especialistas convergem num ponto: prudência, sem paranoia. Jeisson Barreto recomenda atenção redobrada a gestos com a mão, principalmente em viagens a lugares desconhecidos, onde um sinal considerado banal pode ter outro significado local. Vale também cuidar da legenda da publicação, de quem aparece ao lado na foto e da privacidade do perfil, além de evitar reproduzir gírias e símbolos associados a facções mesmo como brincadeira. No Brasil de hoje, um gesto bobo já foi lido de forma errada e alguém pagou com a vida. Reconhecer isso não é alarmismo, é olhar a realidade de frente, afirma o advogado. Caso alguém seja mal interpretado, ameaçado ou tenha a imagem usada indevidamente, a orientação é preservar as provas, registrar ocorrência e procurar um advogado, nunca tentar resolver o problema sozinho. Já Eduardo de Barros reforça a importância de pensar antes de publicar, avaliando se uma imagem pode gerar leituras ambíguas para quem não conhece o contexto original. "É recomendável evitar compartilhar conteúdos de origem duvidosa, revisar configurações de privacidade quando necessário e lembrar que, na internet, uma publicação pode circular por tempo indeterminado e alcançar audiências muito além daquelas imaginadas inicialmente. A educação digital passa justamente por compreender que toda imagem pode ganhar novos significados quando deixa o círculo original de quem a publicou", conclui. Com informações de G1 e Folha de São Paulo 🎥Veja também: Perigo nas redes; saiba AGORA como se proteger! Perigo nas redes; saiba AGORA como se proteger!