Levante contra a IA ganha contornos radicais, em vã tentativa de frear o progresso
Movimentos envolvem desde sabotagem até protestos contra o impacto ecológico dos gigantescos data centers
Nas ruas dos Estados Unidos e de outras partes do mundo, uma nova forma de ativismo vem ganhando força nos últimos tempos. Os protestos crescentes não miram líderes políticos ou a carestia, mas um novo e desafiador inimigo: a inteligência artificial (IA). Enquanto alguns carregam bandeiras denunciando a suposta ameaça aos empregos e à saúde do planeta por empresas do setor como a OpenAI, dona do ChatGPT, outros formam brigadas devotadas ao nightshade, a recém-disseminada prática de “envenenamento” de dados, com o objetivo de sabotar ferramentas de IA. À medida que a revolução dos chatbots generativos se espalha, enfim, cresce um efeito colateral ruidoso: a resistência global a esse avanço. Uma reação que a história ensina ser mais do que compreensível e esperada diante de saltos como o que vivemos hoje — mas absolutamente inútil.
Quanto mais a IA se torna indissociável de nossas vidas, das tarefas no trabalho às questões pessoais, mais as angústias diante dela se multiplicam. Segundo o estudo Ipsos AI Monitor 2026, em parceria com o Google — que ouviu 23 532 pessoas entre 17 e 74 anos em 32 países —, as ferramentas de IA já são usadas por 66% da população mundial. Mas o sentimento nutrido por elas é ambivalente: há entusiasmo, mas 50% relatam receio. Se por décadas ela era uma possibilidade remota que despertava medos difusos tão bem explorados pela ficção científica, agora é uma força real — e, como tal, traz preocupações concretas. Um terço dos trabalhadores teme perder o emprego para a IA, quase metade dos entrevistados acredita que a tecnologia vai piorar a desinformação on-line — e apenas 15% acham que vai melhorá-la (leia o quadro).
Parte relevante dessas reações é canalizada para um novo ativismo digital. Seu principal alvo tornou-se a infraestrutura física que sustenta a chamada “nuvem” — os cada vez mais mastodônticos data centers, necessários para atender à demanda por tanto big data. A jornalista Karen Hao, autora de O Império da IA (Rocco), descreve o setor como uma forma de extrativismo de dados e recursos naturais. “Modelos de IA generativa são monstruosidades construídas a partir de recursos inconcebíveis”, diz ela.
Esse tipo de visão já gera conflitos concretos. Militantes ambientais protestaram contra um treinamento do GPT-4 que fez servidores da Microsoft em Iowa consumirem 43 milhões de litros de água em plena seca americana. No Chile, um tribunal bloqueou o uso de água por um data center do Google em Cerrillos, obrigando a empresa a adotar outra forma de refrigeração. Dos recursos de mananciais à poluição sonora causada pelos servidores, o impacto desses grandes centros realmente merece atenção. Errôneo, porém, é achar que o melhor modo de lidar com eventuais problemas é bloquear sua expansão.
A resistência também avança na área da criação artística. No Brasil, ganhou força a campanha Dublagem Viva, contra a substituição de dubladores humanos por vozes sintéticas geradas por IA — um movimento que une defesa de empregos e preocupação com conteúdos padronizados, sem a marca pessoal de cada voz. Esse medo de que o trabalho intelectual perca valor diante da eficiência dos chatbots já vem atormentando há tempos os roteiristas e diretores de Hollywood, que em 2023 fizeram longa greve que mirava, entre outras coisas, a ameaça da IA a seus ofícios.
As batalhas para impedir ou congelar a dinâmica do progresso impõem, no entanto, ceticismo: no passado, as tentativas de deter inovações tecnológicas quase sempre se revelaram fátuas (leia no quadro). A prensa de Gutenberg, no século XV, incomodou copistas temerosos pelo ofício e setores da Igreja preocupados em perder o controle sobre o conhecimento — mas seus inimigos não conseguiram impedir a revolução que trouxe ao espalhar informação por meio dos livros e da imprensa. O cinema, no início do século XX, foi visto como entretenimento vulgar e moralmente perigoso, acusação repetida décadas depois contra a televisão. Nos anos 1980, o grupo francês CLODO atacou computadores corporativos e incendiou sedes de empresas de tecnologia.
Para o pesquisador Thomas Dekeyser, autor do recém-lançado Techno-Negative: a Long History of Refusing the Machine (Tecno-negativo: uma longa história de rejeição à máquina), a tecnologia sempre foi um campo de disputa política. O caso mais célebre é o dos luditas. No século XIX, tecelões ingleses sabotavam teares mecânicos que, temiam, roubariam empregos, reduziriam salários e empobreceriam famílias. O movimento assinava cartas de ameaça a donos de fábrica em nome de Ned Ludd, tecelão que deu nome ao movimento. O tempo mostrou que o alarme foi exagerado: a industrialização trouxe mais respeito à mão de obra, o fim do trabalho infantil e mais riqueza, em desejado passo da livre iniciativa.
Por enquanto, a força dos movimentos de reação à IA se revela limitada. Para Benjamin Rosenthal, professor de marketing digital da FGV, eles se concentram em nichos com pouca capacidade de mobilização e capilaridade social. Rosenthal aponta ainda uma diferença essencial em relação ao ludismo do século XIX: “Hoje, esses luditas têm a fábrica na mão deles”, diz, referindo-se ao celular e ao computador pessoal.
De qualquer forma, no lugar de embrenhar-se numa histeria apocalíptica como a de outros séculos, mais vale encarar a nova tecnologia com serenidade — e a devida firmeza contra abusos, claro. “Não se trata de ser a favor ou contra a IA”, diz a historiadora Tatiana Roque, autora do livro A Máquina e Nós (Todavia). “É o caso de partir do princípio de que é possível mudar a maneira como essas ferramentas são desenvolvidas.” Nessa leitura, a tecnologia não é um trem desgovernado, mas um processo que ainda pode ser moldado por governança e regulação baseadas em risco e proteção ao trabalho. Uma pauta que atravessa o debate sobre o PL 2338/2023, marco regulatório brasileiro da IA, no Congresso Nacional. Em vez de parar as máquinas, mostra a história, é melhor botá-las para trabalhar a favor da humanidade.
Com reportagem de Lorenzo Souza
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008