A ameaça com IA que mais preocupa especialistas em segurança digital
Profissionais que usam tecnologia são mais eficientes. Infelizmente, isso vale também para criminosos
Outro dia ouvi de um executivo de tecnologia que a IA pode dar superpoderes aos profissionais talentosos. Isso é ótimo, claro. Acontece que as mesmas máquinas podem também aprimorar as habilidades de quem usa a internet para golpes.
E é justamente essa a preocupação número 1 de profissionais da América Latina ouvidos num relatório que acaba de sair do forno, o ESET Security Report 2026. A pesquisa ouviu 1.563 pessoas, todas profissionais atuando em 962 organizações. Desses participantes, 80,7% atuavam diretamente com cibersegurança.
E você com isso, leitor? Bem, se uma coisa preocupa quem tem a missão profissional de garantir a segurança on-line, acho que faz sentido ficar no nosso radar também, não?
Dessa galera toda que participou, 56,3% apontaram o desenvolvimento de ataques mais sofisticados e automatizados como a maior ameaça associada à IA.
Como golpistas usam IA para ataques mais sofisticados?
A IA pode permitir que os golpes ganhem uma cara mais convincente. Mas não só: os bandidos conseguem alcançar mais potenciais vítimas, com velocidade acelerada e hiperpersonalizada.
Pense em um golpe de phishing. Em vez de escrever uma única mensagem malfeita e mandar para milhares de pessoas, um criminoso pode usar IA para produzir rapidamente versões diferentes do texto, adequadas ao idioma, ao perfil profissional ou ao contexto de cada potencial vítima. Uma mensagem destinada ao funcionário de um banco pode ter linguagem diferente daquela enviada a alguém que trabalha em uma universidade. Tipo o que rola na publicidade, só que para fins ilegais.
A mesma lógica vale para tentativas de se passar por empresas, colegas ou prestadores de serviço. Sistemas de IA conseguem produzir textos convincentes em segundos e manter conversas com uma fluência que torna mais difícil perceber erros de linguagem que, durante anos, ajudaram a denunciar mensagens fraudulentas.
Vítimas escolhidas a partir da análise de dados
Como desgraça pouca é bobagem, tem outra dimensão nessa história: os golpistas podem, ainda, analisar grandes quantidades de informações públicas em busca de alvos mais interessantes, produzir inúmeras variações de uma tentativa de fraude ou adaptar rapidamente uma abordagem quando percebem que determinado tipo de mensagem deixou de funcionar.
A consequência é que a inteligência artificial pode funcionar como um multiplicador de capacidade. Um ataque não precisa necessariamente apresentar uma técnica inédita para se tornar mais perigoso. Ele pode continuar usando phishing, roubo de credenciais ou exploração de falhas conhecidas, porém com mais velocidade, escala e personalização.
É assustador (e estranho) pensar que o mesmo discurso do marketing que diz que profissionais que usam IA são mais eficientes vale também para o crime organizado. Mas vale mesmo, infelizmente.
Como se proteger de tentativas de golpe que usam IA
- Desconfie até de mensagens bem escritas. Erros de português já não são um bom filtro, porque a IA produz textos convincentes e personalizados.
- Confirme pedidos importantes por outro canal. Se alguém pedir pagamento, senha, documento ou alteração de dados bancários por e-mail ou mensagem, procure a pessoa ou empresa diretamente, usando um contato que você já conheça.
- Evite clicar em links de mensagens inesperadas. Quando possível, abra o aplicativo ou digite você mesmo o endereço do serviço para verificar se o aviso é verdadeiro.
- Ative autenticação em dois fatores. Mesmo que uma senha seja roubada, uma segunda forma de autenticação dificulta o acesso à conta.
- Use senhas diferentes para cada serviço e um gerenciador de senhas. É chato e dá trabalho, mas evita dores de cabeça maiores. Porque se vazar uma senha, você não fica exposto com outras contas.
- Mantenha celular, computador e aplicativos atualizados. Atualizações corrigem vulnerabilidades que podem ser exploradas em ataques.
- Cuidado com a urgência. Mensagens que exigem uma ação imediata, como pagar, clicar, fornecer um código ou “evitar o bloqueio da conta”, merecem uma verificação adicional antes de qualquer resposta.
- Proteja também o celular de trabalho. Bloqueio de tela, atualizações e autenticação adicional importam porque o próprio relatório identifica os dispositivos móveis como uma fragilidade entre os profissionais pesquisados.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda