Óculos digitais da Meta viram sucesso de vendas e mania global — mas não sem polêmicas
Novos dotes tecnológicos fazem deles assistentes espertos
No princípio da década passada, uma pergunta rondava a cabeça dos executivos do Vale do Silício: qual seria a próxima engenhoca digital capaz de repetir o sucesso dos smartphones e tablets? A resposta mais óbvia era que bastava abrir os olhos para ver o futuro: ele estava nos chamados “óculos inteligentes”. Em 2013, a Google lançou com alarde o produto pioneiro desse mercado. Mas a expectativa logo deu lugar à decepção nas vendas. Treze anos depois do malfadado Google Glass, os óculos inteligentes, enfim, estão alcançando o êxito que se esperava. Agora, por obra da Meta, de Mark Zuckerberg — e com uma proposta bem diferente da que exibiam em seu nascedouro.
A história da Meta no ramo começa em 2021, com o lançamento da primeira geração de óculos da empresa. Em parceria com a Ray-Ban, os Ray-Ban Stories eram a tentativa da big tech de triunfar num mercado em que a concorrência havia se frustrado. A linhagem original parecia seguir a mesma lógica que movera a Google anos antes: oferecer um gadget capaz de desempenhar funções similares às de um smartphone. O novo produto não empolgou muito, mas já demonstrou uma sacada importante da dona do Facebook e do Instagram: em vez de lançar um artefato com ar cibernético meio desajeitado, a parceria com a Ray-Ban permitiu criar óculos de design desejável. A guinada rumo ao sucesso se delineou em 2024, quando a companhia dotou-os de um diferencial: a inteligência artificial.
Lançada no exterior há pouco mais de dois meses, e ainda sem previsão de vendas no Brasil, a terceira e novíssima geração trouxe evoluções que fizeram o aparelho “pegar” de vez. Em vez de ostentar a marca da badalada Ray-Ban, os óculos agora trazem só a identificação da fabricante dela, a europeia EssilorLuxottica. Eles passaram a se chamar Meta Glasses e saem por um preço bem mais acessível: 299 dólares, ou cerca de 1 525 reais (antes, custavam 379 dólares).
O salto mais formidável, contudo, se deu na tecnologia de IA. Hoje, eles carregam o Muse Spark, sistema que lhes confere habilidades impressionantes. O aparelho consegue gravar vídeos em alta resolução, tirar fotos, reproduzir e gravar áudios, atender ligações, e mais um mundo de coisas. O Muse Spark torna tudo isso mais eficiente. O agente de IA pode observar o entorno e entregar respostas a pedidos do dono, como sugestões de restaurantes por perto ou até lembrar onde seu carro foi estacionado. Além disso, faz tradução simultânea em vinte línguas e pode criar legendas durante as conversas em ambientes barulhentos (veja no quadro).
Em resumo, os novos Meta Glasses rompem com o velho conceito de imitar um smartphone para acenar com algo mais sedutor: um aparelho que funciona como interlocutor e assistente — sempre de olhos bem abertos. O efeito disso fez bem aos negócios da big tech. De acordo com a consultoria IDC, a Meta já detém 76% do mercado de óculos inteligentes, que no ano passado totalizou 9,6 milhões de unidades vendidas no mundo. Em 2026, a receita gerada por eles no primeiro trimestre dobrou em relação ao mesmo período de 2025. As previsões indicam que, até o fim deste ano, 13,6 milhões de unidades devem ser comercializadas, e em 2030 o número deve chegar a 27,3 milhões de óculos.
Subitamente, os Meta Glasses tornaram-se pop, invadindo dos estádios da Copa do Mundo até o visual de celebridades — a mais notória delas é a socialite e influencer Kylie Jenner, que se tornou a garota-propaganda da nova linha dos produtos. Curiosamente, os mesmos dotes à la 007 que fazem seu sucesso também causam preocupação. Se já eram aparelhos capazes de filmar e fazer fotos sem que as pessoas muitas vezes percebessem (apesar do LED que se acende quando a câmera está gravando), a IA turbinada os tornou ainda mais marotos. A fama de “óculos de pervertidos” levou um diretor do Instagram, Adam Mosseri, a anunciar que conteúdos de pegadinhas e comportamento abusivo registrados sem o conhecimento das vítimas seriam banidos da rede.
O próprio Mark Zuckerberg, por sinal, já sentiu o efeito dessa desconfiança. Em fevereiro, quando teve de depor no julgamento que resultou na condenação da Meta e da Google numa acusação emblemática sobre a natureza viciante das redes sociais, o magnata compareceu à corte na companhia de assessores com Meta Glasses. Advertido pela defesa de que eles poderiam ser utilizados para rastrear a identidade dos jurados, o juiz ordenou que tirassem os óculos no recinto. Resumo da ópera: é bom não perder de vista essas lentes indiscretas.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007