Na ponta dos dedos: os anéis inteligentes ganham adeptos no Brasil e no mundo
Eles oferecem um modo prático de monitorar a saúde, melhorar o sono e acompanhar a atividade física
Em reuniões, viagens de trabalho ou momentos de lazer, um acessório discreto tem chamado a atenção no dedo de executivos de grandes empresas no Brasil e no mundo — são os smart rings, ou anéis inteligentes. O que parece, à primeira vista, mais um modismo do mundo corporativo, reflete uma mudança na forma como homens e mulheres de negócio enxergam sua produtividade. Para muitos deles, manter um alto desempenho passou a depender do cuidado com a saúde e da análise contínua de dados sobre o próprio corpo. Os anéis inteligentes são equipados com sensores que coletam dezenas de informações, como a temperatura corporal, a frequência cardíaca, o nível de oxigenação, a qualidade do sono e o nível de recuperação após atividades físicas. Os dados são exibidos em aplicativos de celular que se conectam aos smart rings via Bluetooth. Nas versões mais sofisticadas, inteligências artificiais ajudam a criar rotinas de treino e indicam até mesmo o risco de o usuário adoecer no curto prazo.
A finlandesa Oura é a líder desse mercado, que deve crescer 13% neste ano e alcançar vendas globais de cerca de 5 milhões de unidades. A coreana Samsung, a chinesa RingConn, a indiana Ultrahuman e a americana Amazfit, entre outros fabricantes, também oferecem seus modelos. Mariana Fragoso, presidente do grupo de restaurantes Capim Santo, de São Paulo, começou a usar o anel da Oura neste ano por recomendação médica com o objetivo de conviver melhor com a menopausa. Com ele, compreende como a rotina afeta seu bem-estar. “Percebo quando não estou bem e como isso impacta minha equipe”, diz. Outro adepto é Breno Carolino, vice-presidente da fabricante de bebidas 400FL. O acessório entrou em sua vida há um ano, quando se preparava para uma prova de Ironman, modalidade de triatlo que envolve natação, ciclismo e corrida. Além de acompanhar a recuperação após os treinos, Carolino passou a mapear as reações do corpo a diversos fatores. Ele constatou que a ansiedade aumenta na semana anterior ao fechamento das metas mensais e agora se programa para descansar mais nesse período. “Na terceira semana do mês, durmo sete horas por noite, em vez de seis horas, como nas outras”, diz. “Isso me ajuda a não ter picos de estresse.”
Pela praticidade e pelas dimensões reduzidas, os anéis atraem também quem utilizava outros acessórios, como os relógios e as pulseiras inteligentes, para monitorar a saúde. É o caso de Alexandre Riccio, que comanda as operações do Banco Inter no Brasil e que se incomodava com seu smartwatch na hora de dormir. Com o tempo, até pequenos hábitos foram revistos com a ajuda do anel, como evitar bebidas alcoólicas ou refeições pesadas antes de ir para a cama. Mais do que seguir um roteiro rígido, as informações ajudam o executivo a tomar decisões conscientes. “Adotar certos comportamentos com um propósito claro faz diferença na minha performance”, afirma. Para o médico Guilherme Moury Fernandes, especializado em esportes e atividades físicas, romper com velhos padrões de conduta é um dos grandes benefícios desses aparelhos. “Eles ajudam a identificar tendências e a mudar as atitudes do usuário”, diz. “Ao ampliar o autoconhecimento, os anéis favorecem também uma conversa mais objetiva entre médico e paciente.”
Alguns modelos incorporam recursos específicos para a saúde das mulheres. O Ultrahuman Ring Air, por exemplo, utiliza a temperatura corporal e outros indicadores para estimar as fases do ciclo menstrual, incluindo a janela fértil e a provável ovulação. Para escolher o dispositivo mais adequado a suas necessidades, é preciso considerar algumas características. O Oura exige uma assinatura para desbloquear os recursos mais avançados do aplicativo, enquanto o Galaxy Ring é compatível apenas com celulares que rodam o sistema Android 11 ou superior. Outros fabricantes permitem a conexão com aparelhos da Apple, como os iPhones.
Novas tecnologias como essas podem contribuir para reduzir um problema sério: segundo o Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou mais de 230 000 afastamentos por motivos de saúde mental no primeiro semestre. Contar com o auxílio de um gadget para monitorar indicadores importantes e lidar com as pressões da vida é uma atitude positiva. Assim, os anéis vão se transformando em autênticas joias para quem deseja cuidar melhor da saúde.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008