A notícia aborda o cenário político e econômico da Argentina, destacando a criação de uma moeda local ("chacho") na província de La Rioja em desafio às reformas de livre mercado do presidente Javier Milei. O artigo não traz nenhuma informação sobre rodovias, custos logísticos (diesel, pedágio, frete), documentos de veículos ou regras da ANTT de interesse para o motorista, frotista ou transportador de cargas.
Principais tópicos abordados: Economia da Argentina, emissão de moeda provincial, reformas governamentais e taxas de juros (Selic e Federal Reserve).
Desafiando Milei, líder da oposição cria sua própria moeda, o 'chacho'
O regresso dos chachos, que só circulam numa província empobrecida, manifesta uma realidade persistente que se esconde apenas abaixo da agenda de reformas radicais do presidente argentino
Um dos governadores de oposição mais veementes da Argentina está reintroduzindo uma moeda local que só pode ser usada dentro de sua província, reforçando um modelo econômico intervencionista justamente quando o presidente Javier Milei tenta convencer os investidores de que o país adotou de forma definitiva o livre mercado.
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O governador Ricardo Quintela está distribuindo chachos, como são chamadas as cédulas, para cerca de 80 mil funcionários públicos e outros beneficiários em La Rioja, uma pequena e empobrecida província situada no extremo leste da Cordilheira dos Andes.
Os trabalhadores receberão um pagamento adicional de 50 mil chachos por mês — equivalente a cerca de US$ 33, ou quase 10% do salário médio local — até o fim do ano, revivendo uma iniciativa para sustentar o consumo que Quintela, uma importante liderança do Partido Peronista, lançou pela primeira vez em 2024.
O retorno do chacho, que circula a uma taxa de câmbio de um para um com o peso, expõe uma realidade persistente que se encontra logo abaixo da transformação promovida por Milei na Argentina. Ele pode ter conseguido reduzir drasticamente a burocracia, estabilizar a economia devastada pela inflação e impulsionar um boom nas exportações de commodities, mas o crescimento da economia em geral continua fraco e os novos empregos são escassos, deixando muitos argentinos com a sensação de terem ficado para trás.
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Isso abre espaço político para o modelo intervencionista, há muito promovido pela oposição peronista, que Milei está tentando eliminar.
Afundada em uma situação de inadimplência desde 2024, La Rioja representa essa abordagem alternativa em sua forma mais extrema. Há mais de três funcionários do setor público para cada trabalhador formal do setor privado, segundo dados do governo nacional, fazendo do governo local o principal motor do crescimento.
A província administra uma ampla rede de empresas controladas pelo Estado e rejeitou os principais incentivos de Milei para investimentos, enquanto regiões vizinhas atraíram compromissos de mais de US$ 15 bilhões em investimentos no setor de mineração.
Quintela descreveu o chacho como um “ato de rebeldia” e ameaçou reverter as reformas de Milei caso os peronistas consigam derrotá-lo nas eleições do próximo ano.
“Os investidores precisam ser avisados: o peronismo vai revisar absolutamente tudo”, disse ele em uma entrevista a uma rádio no mês passado. “Tudo o que precisar ser nacionalizado, nós vamos nacionalizar. Tudo o que precisar ser expropriado, nós vamos expropriar. Nós vamos tomar de volta.”
Milei parece não se incomodar. “O peronismo sempre propõe gastar mais”, escreveu o presidente no X depois que a província anunciou o retorno do chacho. “E sempre propõe pagar por essas ilusões imprimindo dinheiro.”
O líder provincial colocou em circulação cerca de 4 bilhões de chachos no último mês, no valor aproximado de US$ 3 milhões. Legalmente, ele poderia ir muito além: os legisladores locais autorizaram a emissão de até 85 bilhões de pesos (US$ 50 milhões) até dezembro deste ano.
Até agora, ele está sozinho em seus esforços.
Embora outras províncias também tenham emitido suas próprias cédulas no passado, principalmente durante crises como o colapso da paridade entre o dólar e o peso no início dos anos 2000, La Rioja é a única a fazê-lo nos últimos 20 anos. Mas, para investidores que estão colocando dinheiro na Argentina com base na expectativa de que a mudança favorável ao mercado promovida por Milei sobreviverá à sua presidência, a retomada das cédulas locais faz de La Rioja algo mais do que apenas um reduto excêntrico.
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— Essas não são manifestações impensadas — disse Lucas Romero, que dirige a consultoria política Synopsis, com sede em Buenos Aires. — Existe uma intenção clara de provocar, por meio de propostas disruptivas que são antagônicas a Milei e despertam temores no mercado.
Manter esse risco político vivo, segundo ele, favorece o peronismo e poderia pressionar Milei às vésperas das eleições de 2027.
Mal haviam se passado 20 minutos desde que Juan Barrionuevo recebeu seus 50 mil chachos, e eles já tinham desaparecido.
O professor de saxofone de uma escola pública, que trabalha como motorista de Uber nas horas vagas para complementar seu salário mensal de 1 milhão de pesos (US$ 650), recebeu as coloridas cédulas em um parque. Em seguida, dirigiu até um posto de gasolina e gastou todo o valor para comprar cerca de meio tanque de combustível.
—Pelo menos posso colocá-los para trabalhar — disse ele. — As pessoas não estão pensando na economia como um todo — estão pensando no próprio bolso. Afinal, o peso também não é apenas um pedaço de papel?
Barrionuevo está entre os milhares de riojanos que estão recebendo as cédulas em uma variedade improvável de locais: parques públicos, centros esportivos, repartições de impostos e até agências da distribuidora de eletricidade controlada pelo Estado.
Em frente a uma dessas agências, em uma tarde do fim de agosto, várias dezenas de pessoas ficaram cerca de uma hora na fila para receber seus chachos. Em uma província onde a renda mensal média é inferior a US$ 400, poucas pessoas podem se dar ao luxo de rejeitar um dinheiro extra.
Alguns comerciantes, como Gustavo Pairetti, não aceitam chachos como forma de pagamento em sua loja de empanadas na cidade de La Rioja, já que os fornecedores de carne, queijo e frios dos quais compra também não os aceitam. Mas as cédulas não costumam permanecer por muito tempo nas carteiras dos trabalhadores.
É uma economia de “passar o chacho adiante”: os trabalhadores usam as cédulas para comprar bens, enquanto os comerciantes as utilizam para cumprir obrigações provinciais, como pagar impostos, ou as guardam até que sejam abertas as janelas determinadas para resgate.
— As pessoas se livram delas imediatamente, comprando coisas que antes não podiam comprar — disse Juan Keulian, presidente do Centro de Comércio e Indústria de La Rioja. —Os chachos ajudam a reanimar um pouco as vendas no varejo — só um pouco — porque os negócios estão profundamente deprimidos.
—Também é uma mensagem — acrescentou Ricardo Herrera, secretário-geral de La Rioja. —É o caminho que escolhemos para fazer frente ao modelo de Milei, de um Estado ausente.
Desde que assumiu o cargo, Milei agiu rapidamente para reduzir o tamanho do Estado, cortando gastos o suficiente para produzir o primeiro superávit orçamentário anual da Argentina em 15 anos.
Os cortes nas transferências discricionárias e nas obras públicas nas províncias foram uma parte importante do ajuste e, embora a reforma tenha ajudado a estabilizar a economia e recebido elogios dos investidores, ela atingiu com particular força lugares como La Rioja, onde os repasses federais e os salários do setor público sustentam grande parte da demanda local.
“La Rioja não é pobre. Ela foi empobrecida dos anos 1980 até os dias atuais”, disse Gabriela Rodríguez, uma legisladora local que se opõe ao governador Quintela, referindo-se ao que descreveu como o potencial econômico não desenvolvido da província após cerca de quatro décadas de governos peronistas.
O chacho também é carregado de simbolismo — seu nome vem do icônico caudilho de La Rioja, Angel Vicente “Chacho” Peñaloza, que defendeu a província contra forças alinhadas ao governo central de Buenos Aires. Em uma versão do século XXI dessa história, cada cédula traz um código QR que direciona para um site que critica o governo de Milei por reter recursos federais que, segundo La Rioja, são devidos à província.
La Rioja tem a menor renda média individual e a menor renda domiciliar per capita de toda a Argentina, segundo o órgão nacional de estatísticas. Em junho, quase um quarto das dívidas das famílias estava em atraso — o maior índice do país, de acordo com um relatório da consultoria EcoGo e da Universidade Austral, com sede em Buenos Aires.
— Se houver uma queda na atividade econômica entre os funcionários públicos, todos nós sentimos os efeitos — disse Leonardo Guzmán, que administra uma loja de móveis em La Rioja há mais de quatro décadas. — Os chachos são, sem dúvida, resultado de uma má gestão econômica. Estamos falando de uma província que não consegue pagar com dinheiro de verdade.
Mesmo assim, ele os aceita.
“Faço parte desta província e, às vezes, é preciso jogar conforme as regras”, disse Guzmán. “Alguém recebeu seu pagamento em chachos. Que culpa essa pessoa tem?”